A perda da identidade tricolor – I (por Paulo-Roberto Andel)

Vou aproveitar esses dias de (mais uma) folga do time do Fluminense para falar sobre algo que, para mim, é a maior derrota já sofrida pelo Tricolor em seus 122 anos.

A perda da identidade tricolor, que afeta diversos cenários da vivência sobre o clube.

Isso não vem de hoje, mas tem ganhado cada vez mais gente.

Torcedores que têm mais de 35 anos de idade percebem melhor o fenômeno. Afinal, viveram vários momentos diferentes do Fluminense. O clube, vencedor desde sempre, nos últimos 40 anos viveu duas secas de conquistas, bastante distintas. Entre ambas, o terrível período dos rebaixamentos que, somado, mal passa de três anos – logo, um intervalo minúsculo da história tricolor. E, por fim, a era recente.

Entre 1986 e 1994, o Flu viveu sua primeira grande seca profissional. Contudo, apesar de ter alguns times mais humildes, o Tricolor disputou vários títulos. Não ganhou alguns por azar, pelo merecimento adversário ou ainda pelas arbitragens calamitosas.

Já na segunda grande estiagem, de 2013 a 2021, tirando a efêmera Primeira Liga, o Fluminense só chegou às finais do Carioca, que hoje não tem mais a pujança do passado, embora seja também importante.

Essa última década mudou a percepção histórica a respeito do Fluminense. De time fincado em bandeiras coletivas, muitas vezes em escalações que superavam os nomes individuais, passou a ser a equipe de um homem só – Fred – em todo o seu planejamento midiático. A torcida, multifacetada e dotada de um senso crítico permanente, apurado em fins dos anos 1970 nas organizadas e muito praticado nas décadas a seguir, passou a ser adestrada pelo que se chama “novo jeito de torcer”, com paixão e apoio incondicionais, sem perspectiva crítica, agora baseada num estranho conceito de “cidadania tricolor” onde quem não fosse sócio do clube recebia praticamente a pecha de pária. As organizadas, fragilizadas publicamente pela inevitável imagem de violência envolvendo alguns de seus membros, passaram a ser satanizadas. A “new order” tricolor era a de uma torcida com marcha argentina, festa permanente e zero crítica a gols sofridos. O torcedor médio se transformou no integrante de uma seita. Apoio incondicional sem contestação. Torcer virou sinônimo de abanar o rabo, literalmente.

Preparado o terreno, o Fluminense não se renovou politicamente na prática, apenas no discurso. O passado deveria ser tratado com desprezo, algo pequeno. Adversários do novo modelo foram expostos à execração pública com o advento das redes sociais. A imagem de austeridade econômica das gestões, que naturalmente nunca passou de uma falácia, foi cada vez mais intensificada com permanente propaganda, geralmente provocada na rede social X, calcada em frases curtas, de efeito, mas de pouca profundidade. Enquanto isso, claro, a dívida do clube aumentava significativamente.

O ir e vir de jogadores foi uma constante no Fluminense do século XXI. Contudo, a partir da saída da patrocinadora Unimed, o giro de atletas foi cada vez maior, muitas vezes com contratações discutíveis saudadas como se fossem atletas de grande representatividade. Ao mesmo tempo, o aumento constante de litígios judiciais envolvendo jogadores passou a impactar os já combalidos recursos tricolores, aumentando a dívida do clube, ainda mais limitado por não conseguir resultados esportivos expressivos e, consequentemente, melhores cotas financeiras em premiações e com a transmissão de TV esquálida por ter sido erroneamente antecipada.

A crise a partir de 2017, com o encurtamento do mandato de Pedro Abad e a antecipação de posse do novo presidente, marcou uma nova época para o Fluminense. Alguns anos depois, viriam alguns títulos, dentre eles a sonhada Copa Libertadores. O maior problema deste sonho está em seus custos, como veremos na próxima coluna.

(Continua).