O caminho de volta (por João Leonardo Medeiros)

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Comandado por uma direção que entende tanto de futebol quanto eu de física quântica, o Fluminense desaprendeu o be-a-bá da montagem de elenco. Nosso elenco tem jogadores em excesso, é superpovoado em determinadas posições, carente em outras e, sobretudo, deficiente tecnicamente em todos os setores do time. Temos um time ruim e um elenco péssimo. É com pesar que constato essa cristalina verdade.

Se a gente usar os dois últimos anos da segunda gestão Peter Siemsen como parâmetro, temos um exemplo extraordinário de má gestão com ou sem grana. Em 2015, o Fluminense estava com o pires na mão. A Unimed, falida, abandonou o barco e a perspectiva financeira era horrorosa. Nesses casos, só há duas coisas a fazer: subir a base e contratar cirurgicamente bons jogadores desconhecidos.

Subimos a base e vendemos. Já foram Gerson e Kenedy, vai também Marlon, para o Barcelona ou para outro lugar, mas vai. Contratamos uma penca de desconhecidos, dos quais apenas dois mostraram algum futebol: Vinícius, rapaz nitidamente problemático, e o misterioso Edson. O resto era encalhe no portfólio de empresário, que foi despejado nas Laranjeiras com baixo custo e nenhum retorno. O pior é que alguns dos que vieram nessa leva ainda são jogadores do Flu e voltam ano que vem. Parece trailer de filme de terror.

Em 2016, entrou grana firme no Laranjal. O programa do governo federal, Profut, permitiu organizar o pagamento de dívidas, evitando penhoras, e a assinatura dos contratos do Brasileiro e do Estadual com a Globo injetou no clube uma grana firme. Isso sem contar parte da grana das vendas de 2015, que entrou este ano. Pelo menos 30 milhões desse bolo foram injetados no time profissional, garantindo a contratação e/ou renovação de jogadores como Aquino, Danilinho, Pierre, Rojas, Osvaldo, Dourado, Richarlison, Henrique, Maranhão, Dudu etc. etc. etc.

Há muitos jogadores em nosso elenco que não têm a menor condição de perfilar no time profissional do Fluminense Football Club, sequer como reservas. Alguns foram contratados a peso de ouro: Henrique (quase 9 milhões de reais), Richarlison (10 milhões) e Dourado (5 milhões). O dinheiro que entrou saiu por esse ralo. Essa grana não entrará mais por um bom tempo, porque não se assina todo ano contrato com a tevê, de maneira que simplesmente se rasgou bolos de dinheiro.

Enfim, em 2015, sem grana, trocaram os pés pelas mãos. Em 2016, com grana, trocaram as mãos pelos pés. O grupo que comanda o Fluminense hoje simplesmente não sabe fazer futebol, numa ou noutra situação.

Agora, para quem acha que a única forma de fazer futebol bem feito é torrar os tubos para contratar estrelas deve ter esquecido a formação de um de nossos melhores times dos últimos tempos, o time de 2008. Esse time começou a ser formado em 2007, quando contratamos uma penca de jogadores desconhecidos. Vou mencionar três, que vieram para o Flu com baixo investimento: Thiago Silva, vindo da Rússia diretamente do hospital onde estava internado recuperando-se de tuberculose, Thiago Neves, revelação do Paraná Clube, e Cícero, que veio do Figueirense como contrapeso da contratação do promissor Soares. O próprio Conca, que o Flu tirou do Vasco, não era ainda uma estrela, mas nada mais que uma promessa.

O Flu tinha já no elenco alguns jovens vindos da base (Carlos Alberto, apenas em 2007, Fernando Henrique, Arouca, Junior César, além de Alan, Maicon e Tartá, que subiram ali) e trouxe nomes com maior peso para dar cancha e moral ao time: Gabriel, Dodô e Washington. Formou-se um timaço que, por pouco, não conquista a Libertadores.

O time de 2008 não foi montado com a contratação de estrelas. Na verdade, Thiago Silva, Thiago Neves, Conca e Cícero viraram estrelas no Fluminense, por causa do Fluminense. Foi sua performance naqueles anos que os fez ganhar salários superfaturados, salários de estrelaça do futebol mundial. Repetindo, porque isso parece ter sido esquecido: eles não vieram para o Fluminense com salários altos ou fama, mas como promessas com salários baixos. Vieram anônimos, na base do olheiro.

Isso, como dito, a atual gestão simplesmente não sabe fazer. Está aí desde 2011 e não foi capaz de renovar o time com observações técnicas qualificadas. Enquanto tinha a dinheirama da Unimed, podia trazer estrelas e manter o bom nível. Fez isso em 2011, 2012 e 2014. Quando a grana apertou, por exemplo, em 2013, mandou embora o Thiago Neves e o Nem e trouxe o Rhayner. Isso sem contar 2015.

Isso está acabando com o Fluminense, meus amigos. Para cada Wellington, temos 30 Joãos Felipes e Arturs, 50 Dourados. É muito dinheiro no ralo, é muita oportunidade perdida, é muito tempo sem brigar nos principais campeonatos. Nenhum time grande pode viver por muito tempo sem disputar títulos importantes. O Flu se afastou de seu caminho natural, o da vitória. É preciso trazê-lo de volta.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri

Imagem: jole

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