Uns dias (por Paulo-Roberto Andel)

UNS DIAS

O futebol está parcialmente parado. Sem o campeonato brasileiro, o foco está na Copa das Confederações que, convenhamos, não oferece lá grande empolgação por mais que dona Fifa promova o grande carnaval das cervejas a dez reais. Além do mais, os noticiários estão logicamente mais ocupados com as sucessivas grandes manifestações populares, depois de anos de relativa inércia da população – acostumada à exclusiva mecanização do voto como essência plena de cidadania.

E justamente nesta quinta-feira passada, um dia de grande luta popular no coração do centro do Rio de Janeiro, que me deparei com os escudos do Fluminense por calçadas e asfalto.

Primeiro, fui encontrar meu amigo e nosso companheiro da casa Luiz Couceiro: tínhamos o compromisso de ir à passeata e mais tarde trabalharmos na casa de outro amigo, João Marcelo Garcez. Os que nos acompanham sabem que estamos finalizando um livro juntos, motivo de alegria para todos nós – e sem podermos dizer o mesmo das redações e estúdios de futebol. Coube a mim a impressão e o transporte dos originais até a casa de João para que fizéssemos a leitura final do texto produzido, em simbolismo teatral justo: tenho a convicção que fizemos um grande trabalho (dei sorte em estar nessa!), tanto pelo enfoque – que será apresentado a todos em muito breve – quanto pelo estilo literário peculiar de cada um dos autores, multifacetado por vários ângulos. Em suma, eu parecia um “subversivo” ao lado de Luiz na Uruguaiana, Presidente Vargas e Rio Branco. Mais tarde, já no metrô, ouvimos as bombas explodirem perto da Prefeitura carioca. As ruas rugem porque os corações perfeitos estão cansados. Nós também, tanto pelo que se vê em volta quanto pela eterna perseguição ao Fluminense.

No meio de centenas de milhares de pessoas, foi possível ver alguns jovens com camisa e bandeira do Fluminense. É bom que se diga: isso está muito, mas muito longe de parecer alienação diante da insatisfação nacional. Pelo contrário: por conta da enorme campanha midiática que enfrenta contra si desde que a imprensa é imprensa nesta cidade-capital, o Flu de certa forma represente um símbolo de resistência contra o totalitarismo daqueles que, por meio de seus respeitáveis trabalhos na labuta jornalística do futebol, insistem em malversá-lo, tentando depredar a secular história do nosso time por meio de chacotas e deboches. Estes mesmos respeitáveis, que carregam sorrisos irônicos contra o tricolor a cada fonema que emitem, nem desconfiam do que eu carregava com Luiz num envelope pardo: simplesmente a negação veemente e substanciada de tudo o que fazem. Sim, então passo a ser um subversivo sem aspas nas melhores acepções da palavra: perverter; perturbar; desordenar; corromper; sublevar; conturbar; convulsionar; tumultuar. Mais ou menos por aí.

Assim como as ruas estão cheias de insatisfação não apenas com um acontecimento isolado – mas sim toda uma conjuntura -, o Fluminense tem muitos de seus torcedores permanentemente incomodados com as pechas que nos atribuem, o sarcasmo que apontam contra nossas cabeças, o deboche, a desinformação, a permanente criação de crises delivery. Estar nas ruas com a nossa camisa, a nossa bandeira e as nossas cores é também um gesto forte de protesto.

O campeonato brasileiro volta em instantes e, apesar dos indícios que levam a crer que o Flu brigará pelo topo da tabela, ao primeiro novo tropeço surgirão manchetes relacionadas à decadência em relação a 2012. Agora mesmo, antes da pausa, perdemos dois jogos fora de casa onde claramente podíamos ter empatado ou vencido – ambos decididos perto do fim. Imediatamente a FPress ateou fogo: “O Fluminense já perdeu quase tudo o que já tinha perdido ano passado até ser campeão brasileiro”. Ora, só lunáticos podem acreditar que, em todos os certames, o vencedor da nossa principal competição nacional chegará à 35ª rodada com apenas três derrotas.

A voz das ruas ruge e esperam-se ventos de mudança. Sobre o Fluminense, nós mesmos temos a faca e o queijo na mão: a diretoria, a comissão técnica, os jogadores, a nossa torcida, as redes sociais, sites e blogs, nossa informação própria. Nada de ranços, vaidades ocas e estrelismo.

Juntos, podemos ir muito, muito longe.

Chega de esperar.

Estes são os dias.

Paulo-Roberto Andel

Panorama Tricolor

@PanoramaTri @pauloandel