Um fã, um jornalista e uma certeza (por João Marcelo Garcez)

1995bRenato Gaúcho foi o meu ídolo de infância. Não me lembro de ter falado isso publicamente em algum tempo. Mas foi algo que revelei ano passado, no estande do Fluminense na Bienal do Livro, durante entrevista.

Não haveria como ser de outra forma. Vivi e padeci o período de vacas magras do Flu durante a minha juventude, quando a escassez de craques e títulos parecia eterna. Mas a redenção chegaria. Com audácia, arrojo e liderança, Renato Portaluppi devolveu aos tricolores a autoestima que andava passando ao largo dos corações de uma torcida carente e sedenta de conquistas.

Quando a barriga de Renato encontrou a eternidade, eu tinha 16 anos. Foi ele quem fez com que eu visse o Fluminense campeão pela primeira vez – e que vez! – dentro de um estádio. Era muito tempo para um garoto que estava prestes a fazer vestibular e tirar o título de eleitor. Como, então, não elevá-lo ao pedestal de deus tricolor?, condição que perdurou até o fim de sua passagem pelo clube, em 1997, ano em que trocou as Laranjeiras pela Gávea, quando praticamente já não jogava.

Renato Gaúcho encerrou a sua carreira em 1999, no Bangu, após fazer apenas duas partidas oficiais. O jogador se despedia dos gramados, mas não de minhas pastas. Por muito tempo, arquivei, dia a dia, todas as notícias que eram relacionadas a RG nos jornais cariocas – até mesmo quando esteve no Flamengo, o que, claro, me remetia a um inevitável sentimento de traição. Mas o que fazer? Ídolo é ídolo.

Charge RGJá graduado em jornalismo (e também em publicidade) e atuando então como repórter do Jornal dos Sports, fui designado para cobrir o Fluminense no segundo semestre de 2002, coincidentemente quando Renato, ainda engatinhando como treinador, substituiria Robertinho no comando do time.

Pela primeira vez, estaria diante de meu antigo ídolo – e logo para entrevistá-lo. Surpreendentemente, não me peguei nervoso, sempre fui muito concentrado em serviço. Mas jamais esqueci de um tragicômico episódio que envolveu dois jornalistas – eu, um deles – naquela apresentação.

De volta às Laranjeiras no centenário do clube e justamente na semana de um Fla-Flu, um dos profissionais de imprensa presentes ao salão nobre perguntou a Renato se de alguma forma o Clássico das Multidões estaria definitivamente marcado na sua carreira, já que, segundo ele, sua trajetória como jogador tricolor havia acabado também na véspera de uma edição do mais famoso clássico nacional.

Renato divagou e não respondeu nada de muito substancial. Mas o erro do colega me incomodou e ficou martelando a minha cabeça. Renato deixara o Fluminense na véspera de Flu x Vasco do Brasileiro de 1997, eu tinha certeza. Primeiro, porque não havia informação sobre o craque naquele período que eu não soubesse, e depois porque eu estive no Maracanã e lembro da tristeza da torcida naquela tarde amarga, na qual, com o coração dilacerado, entoou cânticos típicos de quem se sentia traída. A tarde fúnebre terminaria, ainda por cima, com uma derrota por 3 a 1 no clássico.

Após a coletiva, chamei de canto o repórter da TV Globo (hoje num canal a cabo) e falei-lhe de seu equívoco. A reação não foi boa. O colega deu de ombros e, aparentando ignorar o que eu dizia, sustentou a autenticidade do que perguntara. “Tanto saiu na véspera de um Fla-Flu que ele respondeu sem me corrigir”, duvidou.

Achei melhor deixar pra lá, pois já havia cumprido com o meu papel. Minha intenção era ajudá-lo, temeroso que fiquei de que levasse ao ar uma informação incorreta. Renato, claro, não o havia contrariado porque, como quase todo jogador, levou vida cigana e, também como a maioria, não tinha lembranças dessas informações que só os mais atentos (ou fãs, como no meu caso) registravam.

RGDirigi-me para um setor do estádio destinado à imprensa onde pudesse acompanhar o primeiro treino do novo técnico. Renato girava o barbante de um apito, enrolando-o no dedo enquanto se apresentava ao elenco.

Eu escrevia qualquer coisa num bloco quando o tal repórter veio até mim, mais contidamente, e disse: “Olha, pedi ao pessoal da TV para consultar os arquivos da emissora, e parece que você tem grande chance de estar certo. De qualquer forma, ainda estão verificando lá.”

Segui com as minhas anotações, que traziam a nova formação tática do time do Fluminense, escalado por Renato, que tinha o privilégio de contar com Romário em seu ataque.

Não tardou para que o então repórter da Globo me procurasse mais uma vez, agora com uma expressão suave e simpática. “É… Você tinha razão. O Renato saiu mesmo na véspera de um Flu x Vasco”. E, com humildade, estendeu a mão. “Puxa, me desculpe pelo modo como falei contigo àquela hora, ok?”

Disse a ele que ficasse em paz e que estivesse tranquilo para fazer o seu trabalho. Contei-lhe ainda do meu medo de que transmitisse uma informação errada a milhões de pessoas.

Ele agradeceu e, por último, perguntou como eu me lembrava de um fato que nem era tão marcante assim e que tinha acontecido havia tanto tempo.

“Não marcante só para alguns”, respondi. “Renato era meu ídolo de infância, minha referência de Fluminense. Por muito tempo, gravei e guardei tudo que era publicado a respeito dele. Segui seus passos, fiz clippings, como se fosse seu próprio assessor de imprensa. Não havia nada dele que eu não tomasse ciência”.

O repórter, agora 100% relaxado, sorriu e disse-me, enquanto estapeava meus ombros. “Ah, pô, por que não falou logo? Se eu soubesse disso, nem teria mandado ver coisa nenhuma lá nos arquivos da TV”.

E caímos os dois na gargalhada.

João Marcelo Garcez (joaogarcez@yahoo.com.br) é jornalista, publicitário e escritor. Autor de cinco livros, já trabalhou em empresas como TV Globo, Jornal dos Sports, Globoesporte.com e DM9DDB. Atualmente na Editora 5W, Garcez escreve mensalmente ao site Panorama Tricolor.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri 

Fotos e imagens: reprodução

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