Racismo no futebol do Rio II (por Alexandre Berwanger)

Ed.15 | Vol.8 | N2 | 2010

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1923: investigação sobre a existência de racismo no noticiário esportivo carioca

Justificativa

Ao lançar um olhar atento aos jornais do período citado, acreditamos ser possível acrescentar novos elementos ao debate já existente nas Ciências Sociais. Desde a publicação do livro O negro no futebol brasileiro, de Mario Filho, surgiram várias discussões nos campos da Educação Física, Antropologia, História e da Comunicação Social, muitas delas envolvendo o Campeonato Carioca de 1923. Um novo estudo dos periódicos poderá preencher uma lacuna existente em parte das últimas pesquisas que apenas retomam o que foi transmitido por Mario Filho.

Acreditamos que seja possível contribuir com novas informações sobre o início da miscigenação do futebol brasileiro. Ao invés de nos debruçarmos exclusivamente no que foi escrito, refletindo sobre as conseqüências do fato, pretendemos buscar informações no que foi relatado no calor da ocasião. Soares, numa crítica à utilização exclusiva do livro O negro no futebol brasileiro para pesquisas sobre o tema, alerta para a necessidade de se consultar fontes primárias para uma investigação um pouco mais precisa do fato. “Nesse sentido, necessitamos começar a realizar novas leituras e novos levantamentos empíricos sobre a história do futebol brasileiro, ao invés de promover um discurso romântico de construção da nação ou de militância politicamente correta.” (SOARES, 2001, p. 45).

Hugo Lovisolo analisa justamente este trabalho de Soares como uma contribuição importantíssima para estimular novas pesquisas. A idéia é evitar que os estudos recorram ao livro como única fonte de consulta, criando o que ele chama de “um espiral de reiteração do já dito”:

Em outras palavras, cita-se Mário Filho com baixíssima inovação fatual e interpretativa, apenas colaborando na reiteração e solidificação da invenção da tradição por ele realizada. A mensagem de Soares pode ser entendida como uma generosa incitação à pesquisa, como desafio a historiadores e analistas do fenômeno esportivo, para gerar dados mais sólidos e interpretações que relatem com maior fidedignidade as tramas dos processos históricos. (LOVISOLO, 2001, p. 79).

Vale ressaltar que ao fazer o contraponto aos por ele chamados de “novos narradores”, Soares busca justamente as páginas dos jornais para comprovar que há distorções entre o fatos relatados e a narrativa criada décadas depois. No texto O Racismo no futebol do Rio de Janeiro nos anos 20: uma história de identidade3 (2001), ele rebate vários argumentos utilizados por Mario Filho se valendo de edições de periódicos de 1924. O que está sendo discutido ali é a crise política deflagrada pelo título do Vasco um ano antes, mas que culmina, em 1924, com a criação de uma nova liga para gerir o esporte. Portanto faz sentido ir até os jornais daquele ano. No entanto, como nosso propósito será outro, queremos verificar incoerências nas narrativas criadas não no processo que foi deflagrado, mas sim na trajetória da equipe de futebol. Por isso, também, acreditamos que ocuparemos um espaço ainda não totalmente esclarecido no debate.

A discussão e a pesquisa parecem ser relevantes uma vez que trará à

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1923: investigação sobre a existência de racismo no noticiário esportivo carioca

Vem à tona a forma como era feito o jornalismo esportivo numa época em que o futebol ocupava um espaço diferente do atual na vida cotidiana. Além disso, os resultados poderão contribuir para que sejam evitadas novas incorreções nas matérias jornalísticas que tratam sobre o início da participação dos negros no futebol brasileiro.

Estudos preliminares

Nosso trabalho envolverá temas relacionados a diversas áreas das Ciências Sociais. Aspectos da Comunicação Social, História e até Antropologia estarão presentes ao longo do texto. No entanto, é impossível perder de vista que o pano de fundo para todas estas discussões será o futebol. Desta forma, é preciso contextualizar de que forma pretendemos enfocar tal modalidade esportiva. Aproveitamos algumas reflexões de Lovisolo, para destacar que a velha idéia do esporte enquanto alienador das massas não cabe mais em trabalhos acadêmicos.

Há duas ou três décadas, os cientistas sociais pouco se ocupavam com o futebol que era, isso sim, preocupação do jornalismo esportivo, dos políticos e das pessoas da rua. Mais ainda, a corrente principal das ciências sociais considerava o futebol como uma coisa que distanciava o povo das “preocupações verdadeiras”. O futebol era visto como formando parte dos processos de alienação das massas. Os ventos mudaram o rumo da prosa. Hoje, talvez sob o furacão do culturalismo e da importância concedida à identidade, a crítica da alienação foi barrida e as folhas da valorização da cultura e identidade local formam o piso sobre o qual andamos. (LOVISOLO, 2001a, p.9)

Feita esta breve ressalva, acreditamos ser conveniente lembrar que, a partir do momento em que os estudos sociais começaram e encontrar no futebol uma poderosa forma de compreender a parte da sociedade, foram dados passos importantes para a compreensão das formas de construção identitária do Brasil.

Embora o futebol possa ser considerado como “quase universal”, na linguagem estetizada do gosto e do estilo particular passou a ser uma dimensão importante da construção identitária, tanto no caso da sociedade brasileira quanto de outras. Futebol, alegria, festa, carnaval, música são temperos recorrentes dessa construção. A ‘alegria do futebol’, cuja essência foi posta na ginga de Garrincha, passou a ser uma poderosa metonímia da representação da identidade brasileira: o povo que enfrenta as adversidades com alegria. De fato, o futebol foi visto como teatro da vida. (LOVISOLO, 2001a, p.10)

Leia a parte I deste artigo:

http://www.panoramatricolor.com/racismo-no-futebol-do-rio-i-por-alexandre-berwanger/

Alexandre Berwanger

Panorama Tricolor

@PanoramaTri

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