O problema do Fluminense não é mais financeiro, mas de tirar o elefante da sala (por Marcelo Savioli)

O problema do Fluminense não é mais financeiro, mas de tirar o elefante da sala

Amigos, amigas, a boa notícia é que, pelos meus cálculos, teremos uma redução em nossa dívida em 2018 na casa dos 70 milhões de reais. A nossa dívida líquida em 31 de dezembro, pelos meus cálculos, está na casa dos R$ 474 milhões.

A má notícia é que para obter essa redução nós precisamos vender quase que um time inteiro e estabelecer uma política salarial para o futebol que é altamente restritiva a nível Brasil. A outra má notícia é que esse abatimento da dívida ocorre graças à geração de aproximadamente R$ 100 milhões em receitas com transferências. Isso quer dizer que, se quisermos continuar reduzindo a nossa dívida líquida, teremos que continuar apertando o cerco nas despesas e vendendo nossos melhores jogadores.

Por outro lado, a imposição de venda de atletas vem sendo decorrente de penhoras. Ou seja, quem exerce a pressão sobre o fluxo de caixa, fazendo com que os salários atrasem, são as penhoras e não as despesas, como aconteceu no ano passado. Isso é uma excelente notícia. Significa que se conseguirmos equacionar a nossa dívida ainda não equacionada reduziremos drasticamente a nossa necessidade de vender atletas.

Pelos meus cálculos, temos uma dívida líquida atualizada de R$ 474 milhões. Desse valor, aproximadamente R$ 223 milhões é referente ao Ato Trabalhista e ao Profut. Logo, trata-se de dívida parcelada e previsível.

O problema são os outros R$ 251 milhões. A boa notícia é que desse valor pelo menos R$ 120 milhões são provisão para contingências (ações cíveis, trabalhistas, etc). Parte dessa dívida pode desaparecer se o Fluminense sair vitorioso nas ações. Outra parte pode simplesmente atravessar os anos em disputas judiciais. Uma terceira parte pode ser negociada, chegando-se a um acordo com redução do valor.

Agora vamos às soluções. A primeira é o Fluminense repetir por muitos anos a mesma receita de 2018: arrocho nas despesas e geração de receitas extraordinárias com venda de atletas, deixando o clube com baixo poder de investimento.

Seguir esse caminho é cumprir aquilo que foi programado pela gestão passada, qual seja um Fluminense engessado, monótono e à serviço da banca.

O outro caminho é encontrar uma forma de tirar o elefante do meio da sala. Estou me referindo, obviamente, a esses R$ 251 milhões, que podem estourar na nossa cara a qualquer momento em forma de penhoras. Talvez não seja otimista acreditar que podemos reduzir essa dívida para R$ 200 milhões pagando à vista. Seria ótimo, mas há duas perguntas que precisamos responder:

1 – De onde viriam os R$ 200 milhões?

2 – Como pagaríamos esses R$ 200 milhões?

Como sabemos que não há almoço grátis, teremos que remunerar esse capital, mas temos que fazer de uma forma que ele não penalize lá na frente o nosso fluxo de caixa e nossa capacidade de investimento, o que significa não comprometer receitas ordinárias, como televisão e sócios.

Eu não teria a menor dúvida. Buscaria um grupo de investidores que aportassem os R$ 200 milhões e entregaria como pagamento todas as nossas receitas com transferência de atletas, com juros anuais, até a quitação do total do empréstimo.

Vamos supor que a remuneração do capital fosse de 20% ao ano. Vamos supor que tomamos o dinheiro em 31 de janeiro de 2019. Em 31 de janeiro de 2020, essa dívida seria de R$ 240 milhões. Supondo que em 2020 realizássemos R$ 30 milhões em vendas. A dívida cairia, então para R$ 210 milhões. Em 31 de janeiro de 2021, a dívida corrigida pelos juros seria de R$ 252 milhões. Suponhamos que o Fluminense, nesse período, tenha faturado R$ 80 milhões com vendas. A dívida cairia, então, para R$ 172 milhões. E por aí vai, até quitar a dívida. Ou não. Podemos passar anos apenas remunerando o capital, retendo nossas revelações ao máximo.

Quais as vantagens disso:

1 – Gestão financeira tranquila, sem sobressaltos com o fluxo de caixa, com pequeno aumento do poder de investimento.

2 – Aumento do poder de barganha do clube com eventuais compradores, já que não haverá pressa de vender jogadores. Ao contrário, o objetivo será manter os melhores, que será o melhor investimento do clube. Os investidores também não terão pressa, pois seu capital estará sendo remunerado a 20% ao ano. Com isso, faremos melhores vendas e na hora certa.

3 – Formação de times mais fortes. Imagine se o Fluminense não tivesse sido obrigado a vender Richarlison, Wendel, Marlon, Ayrton Lucas e outros… É disso que estamos falando.

4 – Melhores resultados esportivos e consequente aumento de receitas, melhorando o poder de investimento do clube.

Para que isso aconteça, precisamos ter, evidentemente, uma gestão séria, que esteja comprometida somente com os resultados financeiros e esportivos do clube. Não que a atual não seja, mas é difícil, por outro lado, entender por que não fazem algo assim, se parece uma solução tão óbvia. O custo com o qual não podemos arcar é o de ficar mais quatro ou cinco anos dependentes de venda de atletas, o que é diferente de obter receitas vultosas com transferências, as chamadas propostas irrecusáveis.

Já passamos por esse ciclo em 2018 e quase fomos parar na Série B. O problema é que nós vendemos, mas isso não aumenta a nossa capacidade de investimento. Não tem reposição à altura. Se seguirmos nesse ritmo, vai chegar um momento em que teremos um time tão fraco, que o rumo do precipício é logo ali, porque é um círculo vicioso: vende os melhores jogadores, não tem dinheiro para repôr à altura, monta times fracos, os resultados são péssimos, isso afasta a torcida, as receitas encolhem, tem que reduzir as despesas e vender mais jogadores para pagar a dívida.

É claro que para atrair investidores o clube tem que se profissionalizar e parar de ser movido pela política 365 dias por ano. Isso não cabe mais no futebol profissional. A forma de se pensar o Fluminense hoje é algo que remonta ao período da Pedra Lascada. Se continuar assim, nós é que estamos lascados.

Os números aqui trazidos são, obviamente, aproximados, com base nos dados contábeis que nós temos, em declarações do presidente do clube e valores das transações recentes envolvendo atletas.

O que estou propondo é um pouco de ousadia. Não tem nada a ver com desatino, que é a conduta responsável por nos trazer à presente situação. Nosso problema não é financeiro. É possível pagar toda a dívida em dez anos. Nosso problema é de sobrevivência enquanto força competitiva no cenário do futebol nacional. Para resolvê-lo, o primeiro passo é tirar esse elefante da sala de uma vez só.

***

Eu realmente não consigo entender bem a falta de entusiasmo com a ampliação do estádio e modernização do complexo das Laranjeiras.

É sempre bom lembrar que os grandes resultados obtidos pelo Palmeiras em bilheteria são decorrentes da utilização de um terreno próprio para a construção de uma moderna arena, na qual não gastou nenhum centavo.

Já pensaram em um estádio customizado para 20 mil pessoas, com a empresa que financiar o projeto administrando tudo, do estádio à piscina, ficando com todas as receitas, exceto a bilheteria do futebol e o sócio futebol?

Depois falamos mais sobre isso.

Saudações Tricolores!

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Panorama Tricolor

@PanoramaTri

4 Comments

  1. Savioli,

    Tenho sempre visto os vídeos do Caíque (canal Leiteria do Castilho no Youtube) e vira e mexe ele fala do projeto de restauro das Laranjeiras, que está andando. Pelo que ele falou, devemos ter capacidade máxima de 15.000. Pra ampliar e chegar a 20.000, teria que construir pra cima. E devido a uma lei que impede que Laranjeiras seja mais elevada que o Palácio Guanabara, por enquanto não podemos.

  2. Feliz demais com a volta dos seus textos. Um suspiro de esperança. E uma opinião ponderada, neste mar de críticas que se tornou a crítica tricolor. Obrigado!

  3. ah, concordo.. e mente pequena e não os olhos para ver a longa distância. problemas em hoje e esta semana deve ser feito semanas e meses ou anos atrás.. Não hoje.. Agora é um pouco tarde demais. Espero que haja algo a ser aprendido.

  4. Excelente artigo, mas creio que esses juros de 20% ao ano ainda estão muito elevados. Creio que a venda do Pedro reduziria muito desse valor de 250 milhões. O que está faltando é esse choque de gestão associado a ousadia na captação de receitas, como receitas com estádio, experiência dos torcedores no match-day, padronização de time base-profissionais, somente dessa forma poderemos competir com os times mais abastados pela Rede Globo.

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