Polaroids de tristeza e esperança (por Paulo-Roberto Andel)

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Neste momento, depois de horas de agonia e dor do esporte, milhões de brasileiros estão em seus empregos, depois de terem encarado toda a deficiência dos transportes públicos. Nos hospitais, doentes de morte e vida choram o precário atendimento. Nas ruas, mendigos de todas as idades sofrem. Existe tráfico, estupro, violência, rancor. Muito se fala da corrupção política, mas bem pouco dos interesses por detrás dela, aliados ao poder econômico. Triste e terrível, assim como a hipocrisia – mal do século.

Mas também há um Brasil que aos poucos, começa a olhar para si mesmo, entendendo que é preciso acabar com a prática de segregação de brasileiros por brasileiros, seja por naturalidade, renda, cor, opção sexual, índice de massa corporal. São passos lentos, mas não me cabe aqui esperar nada além, tendo em vista os séculos anteriores de indiferença a tais causas.

E há o Brasil do campo, o que conquistou cinco Copas sensacionais, perdeu a de 1950, a de 1998 e esta de anteontem, depois do maior desastre em campo de sua história.

Mesmo com 36 anos de futebol ininterruptos, estou longe da petulância de tentar explicar milimetricamente ou justificar o que aconteceu terça passada, nos 7 x 1 sofridos frente à impecável Alemanha. E mais longe ainda dos oportunistas mesquinhos de plantão, capazes de beber o sangue da mãe em busca de audiência ou do título de senhores ocos da verdade suprema, acusando a tudo e todos como se o Brasil ter chegado (mais uma vez) às semifinais de Copa do Mundo fosse um lixo. Há quem diga: “Eu já sabia”. Não é verdade: nem mesmo o maior pessimista deste país poderia prever o que aconteceu ontem no Mineirão.

Horas atrás, só pensei em bom senso. Continuo pensando.

O que posso tentar dizer é que aconteceu um desastre.

Penso no improvável Buster Douglas nocauteando Tyson, embora a Alemanha tenha feito uma partida fantástica – o que quero dizer é da circunstância.

Até o primeiro gol, era o Brasil quem agredia e atacava. Veio o escanteio, a bobagem, os germânicos marcaram, o país virou silêncio. Sabíamos estar diante de uma seleção muito forte. O segundo ataque, o segundo gol. Caos. Nos dois primeiros, Júlio César vacilou, mas não merece ser crucificado – e a imprensa calhorda prefere colocar a culpa em Fred. Reparem que o terceiro, golaço, surgiu porque Klose deu uma furada incrível e, com isso, fez involuntariamente o corta luz que espatifou de vez a defesa brasileira. O resto que virou massacre foi consequência desses três momentos e da pane coletiva do time brasileiro, aliado à descomunal força alemã em campo.

Embora em futebol quase nada seja impossível, não temos mais Pelé em campo, nem Garrincha, nem Didi ou Nilton Santos. Os tempos são outros. A Alemanha, metódica, contundente, implacável, entrou em nossa área tabelando e fez 5 x 0 numa goleada avassaladora, um tsunami de bola. Jogou como jogávamos no passado. E em pouco tempo a Seleção Brasileira sofreu o maior massacre de todos os tempos. Nenhum monstruoso Neymar resolveria individualmente, nenhum gigante Thiago Silva resolveria a defesa – batemos cabeça enquanto eles tocavam a bola. No segundo tempo, quase constrangidos pelo estragar da festa, os alemães ainda fizeram o sexto e o espetacular sétimo – contra o qual não há tática, craque, esquema, planejamento e psicólogo que evitasse, basta rever.

Quero ser digno e reconhecer que levamos um banho de bola como nunca, mas tenho dúvidas se isso é coisa de acontecer duas vezes num século, não pela força desproporcional dos alemães, mas pelo roteiro em si. Não estarei aqui para isso; quem puder, confirme.

Será tão difícil assim entender que, por mais que sejamos os mais vitoriosos na história da Copa do Mundo, a Alemanha é também gigantesca e fez uma das melhores partidas de sua história anteontem? Será que vamos repetir as besteiras de 1982, desmerecendo a Itália de Zoff, Scirea, Cabrini, Tardelli, Bruno Conti, Altobelli, Paolo Rossi e tantos outros craques? Ou a França de Tigana, Platini, Fernandez, Giresse e, claro, Joel Bats 1986? A outra França de Zidane, Djorkaeff, Vieira, Deschamps, Henry 1998? Prefiro ser humilde, pensar em nossos equívocos, mas também que tínhamos na tarde de anteontem um adversário que ali,  exatamente ali, foi infinitamente melhor do que o nosso time a partir do 1 x 0.

Ao final do jogo, depois do réquiem de Oscar descontando, muito silêncio nas ruas e também brigas no centro do mundo – Copacabana. Felizmente a tristeza de um país não se repetiu no mar de suicídios do Maracanã em 1950. E também felizmente os jogadores, depois dessa derrota horrivel e incontestável, terão suas vidas pessoais bem continuadas: a maioria joga na Europa, com ótimos rendimentos e ninguém vai passar a abominável miséria de Juvenal, por exemplo. Mais de seis décadas depois, cabe a reflexão de como pudemos ter sido tão escrotos, tão desumanos com Barbosa, Bauer, o próprio Juvenal, Bigode, Ademir, Zizinho, todo o fantástico escrete de 1950. Como pudemos ter sido tão imbecis? A dor da derrota é inevitável, mas o futebol em si e a vida são muito mais do que isso.

Os jogadores e a comissão técnica que aí está são os mesmos que, a duras penas e de forma opaca, levaram o Brasil a figurar novamente entre os quatro do mundo, o que não acontecia desde 2002 e que foi além das grandes conquistas de outros ex-jogadores, tão incensados pela grande mídia. Erros, muitos, aconteceram, mas nada que justificasse esses 7 x 1 mais do que inesperado, sinceramente impensável a priori.

Anteontem no Centro, perto da nova Petrobras, cerca de sete e meia da noite, eu caminhava com minha namorada quando vi dois garotinhos jogando bola, ambos vestidos com a camisa amarela número 10. Os gols eram dois cones. O único expectador solitário da partida infantil era um sofrido morador de rua. Ali entendi que o futebol é imortal, o espírito da Copa e do futebol em si. Metros adiante, adultos choravam as mágoas no fim de um churrasco.

Triste demais ter visto a Seleção perder da maneira como perdeu. Muito triste. Mas o Brasil não tinha a obrigação de ganhar a Copa do Mundo: nenhum time tem essa imposição em qualquer competição que dispute. A obrigação do nosso país em 2014 era o de realizar a Copa, e isso aconteceu de forma perfeita, inconteste, calando os derrotistas que previam o caos e a desorganização do evento – ele não acabou, ainda terá pelos menos dois jogos incríveis no fim de semana e sua realização é motivo de orgulho para os brasileiros. É o que penso.

Os alemães foram também perfeitos, absolutos, supremos. Estão na final com todos os méritos do mundo.

No infinito, Barbosa vive. Ele dispensa hipocrisias.

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Bem diferente do nocaute alemão sobre os brasileiros, a outra vaga da final da Copa 2014  foi disputada entre a Argentina e a Holanda. Os hermanos, sempre crentes que dois é maior do que seis. Os holandeses buscando chegar à quarta final de sua história – enquanto os admiradores da Laranja vibravam com esta chance, é de se imaginar o que diria a imprensa se a camisa da Holanda fosse a do Brasil. “Luta contra a síndrome do vice começa hoje.”

Um jogo duro, equilibrado, com a Holanda melhor nos vinte minutos finais do tempo normal, justamente quando a pequena garoa virou um chuvão.

Higuaín acertou um chutaço no alto, acertando a rede pelo lado de fora. A turma da Argentina suspirou.

No último minuto,  Robben podia ter marcado mas Mascherano bloqueou em cima do lance e impediu a vitória holandesa.

As duas defesas em tarde de grande disputa e afinco.

Na prorrogação, a Holanda com tudo em cima. Pressão, escanteios (todos fora da marca), muitos cruzamentos. Um chute de longe em diagonal do Robben, jogadoraço que alguns (maus) jornalistas diziam tratar-se do “canela de vidro” da Copa de 2010. Santa estupidez.

Susto quando Kuyt, sem querer, acertou o ombro no queixo de Zaballeta – e este desabou nocauteado. Felizmente, nada de grave. O mesmo já tinha acontecido com Mascherano no primeiro tempo normal.

Palacio livre de frente com Cilessen tentando de cabeça, uma bola fraca facilmente defendida. O brilho de Messi a quatro minutos dos penais, arrancando pela direita e cruzando para uma finalização mascada de Maxi Rodríguez. E o fim com a pressão holandesa sem arremates perigosos. Assim, a batalha dos tiros penais.

Já tendo feito todas as alterações, a Holanda não pôs o pegador Krul para a disputa derradeira. Cillensen não conseguiu pegar nenhum, enquanto o herói argentino Romero pegou dois. Claudicante, a Argentina lembra 1990 e chega à final espetacular do Maracanã. Não há Maradona, mas Messi. Deu a garra da Boca e do Budge.

Uma coisa é certa: a dor de cabeça brasileira não terminou com os 7 x 1 de ontem. Haja o que houver, o domingo e a segunda-feira prometem. Resta saber o que terá sido em vão: o massacre alemão ou a garra de Mar del Plata. Alemanha perdendo, fica com mais vices do que títulos; se for a Argentina, iguala suas taças mundiais a perdas na final. Xeque duplo.

Se o Brasil fosse a Holanda hoje, dava para imaginar as manchetes: “Nunca seremos nada!”, “Fracasso eterno!”, “Não nascemos para ganhar”. Em 1954 já era assim.

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Panorama Tricolor

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