“Perdi para a morte, não vou perder para a vida”… (por Antonio Gonzalez)

(por Abel Braga… o Paizão, o Filho… o Brother…)…Onde a tristeza consegue escrever a História!

Era um jogo perigoso, mesmo antes da tragédia que se abateu, dilacerando uma família. A do nosso treinador, Abel Braga. O Sport do Recife é um time que tem o selo de um Vanderlei Luxemburgo, que graças a esse trabalho que vem realizando, parece ter reencontrado a genialidade que sempre o caracterizou como um técnico com currículo de campeão. Ou seja, estávamos diante de UMA equipe conjuntada, sabedora dos seus anseios dentro das quatro linhas.

De repente, como no melhor dos sonhos, 2 a 0 em 12 minutos.  Mas pouco durou o sonho perfeito, faltaram experiência e consistência.  Com um gol ainda no primeiro tempo e outro logo aos 3 minutos do segundo tempo, o time pernambucano empatou.

Como o próprio Abel falou, foi um bom jogo e nós tivemos as melhores chances. O empate final não deixou de ser justo, mas ao mesmo tempo nos deixou um sabor amargo para digerir.

Mas está claro que a semana, infelizmente, foi movida por uma triste notícia: a tragédia que se abateu sobre a família do treinador Abel Braga.

Longe de mim querer remover mais os traços desse fatal destino.  Ao contrário, me remete aos meus 12 anos…

Era 12 de outubro de 1974. O Fluminense vinha mal, num momento de transição, em pleno segundo turno do campeonato carioca. Dirigido então por um Carlos Alberto Parreira, ainda preparador físico, que dava os seus primeiros pitacos no ofício de treinador.

Nosso time, depois de ter perdido o primeiro turno na final da Taça Guanabara, contra o brilhante equipe do América, com mais de 97 mil pessoas no Maraca, não voltou a se encontrar na competição:

AMÉRICA 1 X 0 FLUMINENSE

Local: Maracanã – Rio de Janeiro (GB)

Juiz: José Aldo Pereira

Renda: 1.447.655,00

Público: 97.681

Gol: Orlando 12’ do 1.º

América: Rogério; Orlando, Alex, Geraldo, Álvaro, Ivo, Bráulio, Flecha, Edu (Renato), Luisinho e Gilson Nunes.

Técnico: Danilo Alvim

Fluminense: Félix; Toninho, Brunel, Assis, Marco Antônio, Carlos Alberto, Gérson, Cléber, Cafuringa, Mazinho e Gil

Técnico: Parreira

Então, eu no alto dos meus 12 anos, new aborrecente, naquela fase em que já não queria mais colecionar carrinhos da Matchbox e quando o futebol de botão deixava de ser prioridade, na busca pelas novas sensações que entravam de sola entre os alunos do Colégio Santo Inácio: o surf e o skate.  Obviamente tudo desconhecido para a grande maioria dos cariocas de então, mas com cara de jogos (na época nenhum de nós pensava que chegaria a ser esporte) destemidos e radicais.

Mas o Fluminense era outra coisa, estava em outro patamar, superior a transição entre a infância e a adolescência.

Tudo poderia mudar, rebelde que me transformei.  Mas sem negociar um milímetro sequer do espaço que o Fluminense já ocupava na minha vida.

Era um sábado aquele 12 de outubro de 1974. Como toda boa família espanhola vivendo o seu exílio motivado pela ditadura franquista, o almoço havia durado uma eternidade.

Lá pelas três da tarde meu pai, com o seu fluente “portunhol”, sentenciou:

“Bamos para o Maracanan.  Quero xegar cedo, hoxe facemos a preliminar daquela merda e bocês saben como é… tem que estacionar o carrro num bom lugar… a xente sabe como funciona a torcida deles”…

O bom Pepe, meu pai, se referia aos torcedores do Flamengo, que disputaria o jogo principal.  Hoje, passados 43 anos posso dizer que herdei aquele sentimento paterno ipsis litteris.

O ritual de sempre: Opalão, pegar o meu tio Lorenzo (um dos 10 fundadores da Força Flu) na Senador Vergueiro, dar carona para o delegado Alfredo de Matos Monteiro (então diretor geral do DGIE – Departamento Geral de Investigações Específicas, um braço do DOPS) no começo da rua do Catete, pit stop na rua das Laranjeiras para pegar um outro tio, o Antonio Castro Gil (que viria a ser Vice Presidente de Futebol do Fluminense, campeão carioca em 1984 e 1985, brasileiro em 1984), Catumbi, Presidente Vargas, Praça da Bandeira, Maracanã.  Volta ao redor do estádio, portão 12 (onde depois construiriam o já falecido Parque Aquático Julio Delamare) e o carro devidamente estacionado em um ponto estratégico, próximo a saída.

Para aquela família, a minha, pouco importava o peso do jogo… dava igual uma final (juntos já havíamos vencido em 1969, 1970, 1971 e 1973), do que um jogo sem qualquer valor contra a equipe de Teixeira de Castro.

O importante era estar presente. Caminhar junto com o Fluminense.

Meu pai sempre me disse que a península ibérica (aquela ponta da Europa que é constituída pela Espanha e por Portugal) era tudo a mesma coisa.  Ou seja, ele respeitava como irmão de sangue ao país vizinho.

Na véspera, Parreira havia dito à imprensa, diante da dificuldade do nosso ataque de fazer gols nos últimos jogos, que havia ensaiado uma jogada ofensiva com a participação dos nossos jogadores de defesa.

Dito isto, começa o jogo:

FLUMINENSE 2 X 0 BONSUCESSO  –  12/Out/1974

(Preliminar de Flamengo x Campo Grande)

Juiz: Nivaldo Santos.

Gols: Abel, 12 e 38 do 1.°.

Fluminense: Roberto; Toninho, Abel, Assis, Marco Antônio, Carlos Alberto, Cléber, Cafuringa, Gil, Manfrini (Mazinho) e Marco Antônio Cardelli.

Técnico: Parreira

Bonsucesso: Pedrinho; Zé ‘ Carlos, Nilo, Nilson, Carlos Alberto, Silva, Cabral, Luís Carlos, Mário, Acelino (Alã) e Valinhos (Naldo).

A partida foi decidida ainda na primeira metade.  O zagueiro Abel foi o melhor homem em campo, autor dos dois gols do Fluminense que sentenciaram o marcador.

Findo o nosso jogo, já com mais de 20 mil pessoas presentes, ficamos ainda aqueles 30 minutos de praxe azarando muito ao time das trevas.  Deu certo.  Eles empataram em 0 a 0 com o Campo Grande dos guerreiros Biluca e Neco.

Na volta, meu pai ao descer do carro já na garagem do nosso prédio, com os olhos emocionados (qualquer família de imigrantes ibéricos, com os filhos crescidos no Brasil, era motivo de orgulho para ele), disse (e eu jamais esqueci desde então):

“Esse Abel deve ser um bom rapaz. É filho de portugueses!”.

Papo reto:

– Tenho que agradecer a todos os que se preocuparam com a minha saúde no último mês;

– Da mesma forma agradeço a todos que tem me aconselhado direta ou indiretamente, ao Marcos Caetano e ao Paulo Andel, o meu abraço;

– Quero dar as boas vindas ao novo CEO do Fluminense, Marcus Vinicius Freire, profissional dono de um currículo ímpar. Assim como a todos os novos profissionais que têm chegado ao clube.  A mudança de patamar é visível.  Agora é trabalhar e trabalhar, na profissionalização constante do modelo de gestão;

– Uma pessoa me falou: “Antonio, tem uma galera puta contigo porque dizem que você só queria ser poder, que antes só criticava e agora só elogia”.  Valeu o toque, mas deixa que fica claro uma coisa… Antes eu criticava as merdas feitas pelo Peter Siemsen, pelo Celso Barros e principalmente pelo inconseqüente Mario Bittencourt.  Fui oposição a esse modelo que os atuais opositores eram defensores “orgasmáticos”. Deu no que deu. Lutei por um novo modelo político e de gestão. Já se passaram oito meses cruzando o temporal. O caos financeiro quase que implodiu de vez com o clube, numa situação falimentar. Os resultados virão. Entendo o nervosismo de alguns torcedores, estes são puros, românticos. Mas teremos ainda que sofrer algum tempo, é fundamental a implementação de um plano de gestão altamente profissional, é a única saída. Quanto aos nervosinhos de hoje, rugas de preocupação;

– Tem gente que muito em breve vai ter que engolir as mentiras a meu respeito… Depois não mandem emissários do arrego;

– Fica a dica: eu não cruzo o caminho de ninguém… se alguém se atrever a cruzar o meu, que tenha testosterona para as conseqüências. Continuem batendo o tambor.

Abel Braga chegou ao Fluminense com 15 para 16 anos de idade, em 1968. Campeão nas divisões de base, seleção brasileira, titular nas Olimpíadas de Munique, em 1972. Pelo  time profissional jogou 75 jogos, marcou dois gols… Aqueles mesmos dois gols daquele 12 de outubro de 1974.

Deixou o Fluminense em 1976… Vasco, Paris Saint-Germain, Cruzeiro, Botafogo e Goytacaz, contaram com a sua garra dentro de campo.

A morte dói, dilacera, acaba matando também aos que ficam, principalmente quando envolve uma tragédia.

O Fluminense fez a sua parte, o Presidente Pedro Abad e equipe (leia-se Carina Ceroy, Roberta Fernandes e demais) estiveram à altura da final tricolor.  A torcida do Fluminense, a verdadeira, mostrou-se exemplar.

Mas o que falar do Abel, da sua nobreza ao conviver talvez com a pior dor do mundo, onde o pai enterra o filho?  É inegavelmente uma pessoa diferenciada, do bem.

Estamos diante de um ser de luz!  Não Abel, você não precisa agradecer nada.  A solidariedade e a gratidão caminham lado a lado quando a simbiose é perfeita.

A sua força nos ensina, me faz ser melhor como pessoa.  Diante de você, as minhas guerras não passam de brincadeiras de “aborrecentes”.

Obrigado Abel! Obrigado família Braga!

Essa música de Cat Stevens, “Father and Son”, fala de relacionamentos entre pais e filhos.  Com o passar do tempo, no meu caso descobri, o quanto é importante dizer todos os dias: Te amo Pai! Te amo filho!

Abel Braga já pode ser considerado uma lenda dentro da história do Fluminense.

Abel, você com certeza perdeu para a morte, mas fique certo de uma coisa: você é um vencedor na vida, acima de tudo porque é um exemplo.

Um forte abraço!

#FORÇAABEL

Panorama Tricolor

@PanoramaTri

Imagem: agon/google

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