Passa o rodo! (por João Leonardo Medeiros)

FORAFora o time todo!

Esperei o dia seguinte de uma vitória que colocou nosso time em posição relativamente confortável no campeonato brasileiro (Flu 2×1 Goiás) para escrever essas breves linhas. Isso porque não queria que associassem o raciocínio abaixo ao desempenho de algum jogador em particular ou ao infortúnio da eliminação da Libertadores. O que pretendo sustentar é uma opinião geral sobre nosso time, nosso treinador e sua relação com nossa torcida.

Pois bem, antecipo-me logo: sou fã incondicional do atual elenco do Fluminense. Sou conhecido e apontado, em todos os lugares, por apreciar qualidades de jogadores que a maior parte dos torcedores acha desprezível (certamente alguns comentaristas me tomarão como idiota e redigirão aquelas notas rancorosas em javanês, vertidas para português no tradutor do Mobral). Dito isso, consideremos uma lista com alguns dos jogadores mais criticados do elenco.

Edinho, por exemplo, é ridículo. Dizem todos ou quase todos. Eu não acho, embora concorde que ele seja um jogador limitado que, ademais, vem jogando acima do peso (vejam a foto dele no time campeão da Libertadores do Inter). Ainda assim, gostei do futebol que ele exibiu ano passado, contribuindo muito para a excelente performance da defesa. Vejo sua carreira como uma carreira incompatível com a de um jogador ridículo. Sorte? Pode ser. Mas talvez ele tenha qualidades que passam despercebidas aos olhos desejosos (e com razão) por jogadores com mais virtudes técnicas. Seria possível não tê-las (as qualidades)? Digo logo: prefiro Edinho a Valência pelo simples fato de que o primeiro está sempre apto a jogar e o último nunca. Valência é a melhor definição de jogador virtual, embora, concordo, concordo, concordo, é muito bom quando se materializa em campo.

Euzébio é chamado por muitos de Eudébio, numa atitude desrespeitosa com um jogador que, bom ou ruim, está sempre em forma, pouco se machuca e já garimpou dois títulos brasileiros, formando, em ambas as ocasiões, a zaga menos vazada do torneio (no caso de 2012, até a rodada em que fomos campeões). Dirão muitos que o problema é esse: ele não se machuca, porque é um bagulho como zagueiro. Não acho. Euzébio está longe de ser um grande zagueiro, mas se coloca bem, é bom na cabeça e não amolece em jogo decisivo. O mesmo pode ser dito de Gum e Digão, sendo que este último me parece o mais promissor dos três, até por ser jovem. Uma análise semelhante poderia ter por objeto o Diguinho, com a ressalva de que, na minha opinião, Diguinho é jogador para a reserva imediata de Jean e só. Aproveito para recordar aqui e agora que Vica e Duílio eram jogadores tão limitados quanto os quatro citados, mas que, no entanto, são lembrados sempre com respeito (ao menos) por nossa torcida.

Os laterais são um caso à parte. Bruno é sem dúvidas limitado tecnicamente, mas é um bom marcador e aprendeu, ao longo da temporada passada, lições sobre o ofício de jogador de time grande. Está longe de ser uma bomba, mas pesa contra si a lembrança de Mariano, jogador que, aliás, a maior parte da torcida adorava odiar ou odiava adorar, dependendo do caso. Isso mais ou menos acontece com Carlinhos atualmente. A torcida do Fluminense, em sua maioria, o odeia ou odeia ter de admitir que ele, por muitas vezes, é nosso melhor jogador. Eu acho ele excelente e por mim estaria na reserva de Marcelo na seleção. É minha opinião, claro. Mas devo dizer em meu favor que ela é compartilhada por muitos torcedores dos outros times (pergunte a amigos que desafortunadamente tem outra paixão clubística se gostariam de ter Carlinhos no plantel de seu clube). Um testemunho-desabafo: tem um sujeito que vê jogo perto de mim que chama o Carlinhos de árvore toda vez que ele toca na bola. Eu penso que é uma representação indevida, desrespeitosa até, e, acima de tudo, equivocada. Mas é assim que o cara vê o Carlinhos e com certeza não é o único.

Do meio para frente os ódios são mais voláteis, mais fluidos. Thiago Neves é um dos alvos preferenciais do rancor, para o que certamente contribuem sua passagem pelo filhote transviado e seu novo histórico de contusões. Deco, Nem, Sóbis, Samuel e o próprio Fred também são, muitas vezes, hostilizados e, a cada jogo, xingados nos mínimos erros por torcedores com uma expressão de ira bíblica, o  que me faz lembrar a figura tresloucada de ditadores em fúria. Duvido que se fossem contratados por algum grande time brasileiro não seriam recebidos com pompa e circunstância. No Flu, entretanto, são acusados de sem-vergonhices mis, desde a cachaça até o comportamento displicente e descompromissado com o clube.

Abel, por fim, é burro, idiota… para um percentual muito expressivo de nossos torcedores. Não acho. Entendo que é um treinador conservador e muitas vezes peca ao escalar e trocar jogadores. Mas tem muitas qualidades: é bom treinador de jogadas ensaiadas, raramente seu time toma goleadas de quem quer que seja, trabalha bem com as virtudes de seus jogadores, chama para si a responsabilidade de derrotas, motiva todos os jogadores do elenco, sabe trabalhar com a base e é educado com a imprensa, entre outras. Eu, particularmente, gostava do Telê e do Menotti, além do Parreira e do Vanderlei dos áureos tempos (que não voltam mais); também gosto de Bielsa e, claro, do incrível Guardiola. Mas eles são, por razões variadas, inacessíveis. Fico então me perguntando se, saindo Abel, haveria um técnico brasileiro tão superior que valesse a pena desqualificar um profissional incrivelmente identificado com nosso clube? Mano, Renato, Muricy, Autuori, Cuca, Felipão, apenas para trabalhar com uma lista de notáveis, superam Abel tanto assim? Ou cada um tem virtudes e defeitos como… Abel (e todos nós)?

A essa altura dos acontecimentos, o leitor deve estar imaginando: como essa (insuportável, para muitos) fieira de loas aos jogadores de um time tão criticado pode se seguir a um título como que está dependurado acima do texto? Simples: como disse Abel, a torcida é soberana e eu sou apenas um em nossa grande massa. Se nosso torcedor, em sua maioria, acha péssimo e vergonhoso, nosso time e nosso treinador, apoio e sou o primeiro a dizer “fora com eles todos”: passa o rodo, fora o time todo – como cantávamos na década de 1990. Poderemos, ao fazê-lo, passar um período desagradável, sem títulos e de remontagem do elenco. Mas que se dane, pois, como já demonstramos diversas vezes, o Fluminense não morre, não sabe morrer. Para quem já foi ao inferno da terceira e voltou campeoníssimo (quem mais fez isso no Brasil?), desfazer-se de um elenco duas vezes campeão brasileiro é apenas uma mostra de desprendimento. Fora com eles e que venham novos jogadores e outro técnico.

Só gostaria de ter certeza se é essa mesmo a vontade da torcida e, sendo de fato, que alguém me explicasse como um time tão pavoroso pode ser campeão brasileiro com quatro rodadas de antecipação.

 

João Leonardo Medeiros – Autor convidado

Panorama Tricolor

@PanoramaTri

Imagem: http://oelodacorrente.blogspot.com.br/2009/08/fora.html

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2 Comments

  1. Cara, concordo com v. Creio, entretanto, que a falha do Abel – e acho também, que é por isso que tem o beneplácito dos jogadores – é treinar muito pouco os fundamentos. E isso faz falta em qualquer time e em qualquer esporte, individual ou coletivo. Quanto aos mais criticados, só os critica quem não vai aos jogos e tem mania de cornetar. Agora, o Abel precisa tomar rumo, pois a campanha nestes 5 jogos não foi animadora, mesmo com a desculpa dos desfalques. Sds Tricolores…

    1. Pode ser. Mas, pense bem, Abel trabalha com profissionais. Nossas divisões de base (Brasil, não Fluminense) é que criam jogadores com muitas falhas em fundamentos básicos. Os técnicos-exceção que citei eram/são/foram, quando trabalharam em alto nível, mestres em desenvolver fundamentos, transformando verdadeiras barangas do futebol em jogadores interessantes. Quem não lembra do que Telê fez com Cafu, para ficar com um único exemplo? Agora, com todo respeito, quem mesmo tem esse perfil hoje, que técnico brasileiro em particular?

      ST,
      João

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