Fluminense, pais e filhos (por Paulo-Roberto Andel)

Pai e filho, o grande irmão, todos com os olhos arregalados ao verem um ataque do Fluminense, seja ou fosse na inesquecível geral do Maracanã, ou na Tribuna de Honra ou ainda em outras praças como o Estádio dos Ventos Uivantes, Caio Martins, Teixeira de Castro e, mais recentemente, no Engenhão. Não importam as posses, mas a fé.

A pequena e a grande mão dadas na saída até virar à direita e ver uma rampa enorme, cheia de gente rindo, cantando ou discreta, silenciosa.

A cerveja do pai, o cachorro quente do filho.

O velho recorda os grandes craques que já se foram; o novo faz dos seus olhinhos a nova alça de mira para os futuros ídolos.

Uma experiência sensorial que começa muito antes e termina bem depois de um jogo do Fluminense. O trajeto, as bandeirinhas, os outros garotos tricolores, os adultos, a subida da grande rampa, a emoção da grande nuvem de pó de arroz, a festa das bandeiras. Com títulos, sem títulos, com craques, sem craques. Torcer é melhor que sonhar.

Pai e filho num abraço de um gol, na melancolia discreta de uma derrota, na leveza de um zero a zero sem grande emoção. Ou depois do jogo, bem depois, levando uma bela pizza para casa. Qualquer gol serve!

Torcer é melhor que sonhar, mesmo com todos os perigos das esquinas. Junto ao pai, o filho se sente um pouco herói, um pouco soldado da esperança. O Fluminense é o sentido da vida mas, se ele perder num dia, logo depois virá com sua força de legítima águia do Atlântico Sul.

Esse Fluminense que entorpece, atordoa os outros amores e procura a cada dia espaço no coração de cada tricolor.

O Fluminense do pai de mãos dadas com o filho, chegando ou saindo do estádio, querendo a vitória, mas repelindo o vencer a qualquer custo, sem escrúpulos. Não, isso não!

O irmão e o irmãozinho juntos abraçados ao pai, desimportando se frequentam áreas nobres ou populares só para verem o Flu, o nosso amor de Madredeus. Mensageiros do amor.

Há que se perceber futebol com propriedade em romance. É coisa de paixão, longe da verborragia pernóstica dos covardes, da abominável autossuficiência dos caretas, da feiura da alma. Paixão não tem exatidão: é imprevisível, vivida, exalada. Mas futebol é amor, é encontro, é alívio da mente. É o contrário dos idiotas da objetividade.

A mão do garoto procura a do pai, até que um dia as palmas só se tocam num abraço dentro do coração. Mas antes do encontro ao delírio da mocidade, pai e filho são afago, regência e destino. Tanto faz se amanhã às noite, semana passada ou há muitos anos. Pai e filho são um só abraço, no mais cheio e no mais vazio dos estádios.

O pai e o filho descem o corredor de saída do Maracanã de mãos dadas ou abraçados, espremidos na multidão ou com bastante espaço ao chegar à grande rampa. São amigos, irmãos, cúmplices, dedicados companheiros em uma permanente história sob o céu branco do pó de arroz que fazem qualquer criança, mas qualquer mesmo, ser feliz aos 50 anos de idade ou mais.

Se o abraço de outrora hoje é somente lembrança, ele ainda tem o mesmo sabor e aroma desde a mais tenra idade: nós, tricolores, somos perseverança, fidalguia e um amor que quase ninguém sabe explicar, mas apenas sentir quando as três cores aí sim explicam o sentido da vida a cada jogo, a cada pequena grande história. O pai, a mãe, a vida em riste, o Fluminense muito maior do que qualquer pequeno espírito de porco.

Somos tricolores em paz: filhos, pais, irmãos. Os retratos do que sempre fomos e ainda podemos ser.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri @pauloandel

Imagem: Curvelo

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