Opa, Abel’s style! (por Luiz Alberto Couceiro)

 

Óculos escuros, forte luz no rosto, cabeça girando em meio a uma expressão facial de quem está febril, delirante, com a boca meio aberta, ao som de batidas eletrônicas marcam o início do clipe do músico e artista plástico sul-coreano Psy. Há alguns anos na estrada, ele escreveu uma crítica à maneira de a elite econômica, ao menos parte dela, de seu país viver, demonstrar, seus valores. Alto consumo de bens materiais, combinações de roupas extravagantes e nada discretas, visões dominadores sobre mulheres, reafirmação da felicidade fugaz que deve ser alimentada pelo próximo objeto a ser adquirido. Tudo isso a preços financeiros bastante altos! São os moradores do bairro, e que dão o nome à música: Gangnam style (http://youtu.be/9bZkp7q19f0). Aqui e acolá, até pela dificuldade em lidar com o idioma em relação a tantos outros mais conhecidos, o clipe de Psy e suas perfomances vêm servindo de inspiração ora para a reafirmação desses valores que ele resolveu satirizar, ora pela disseminação do incômodo de pessoas de diversas partes do mundo com a manutenção e o regozijo de prestígio social que necessariamente envolvem muitas outras pessoas fora dessas “benesses” materiais. Claro, alguém sempre paga a conta…

Com a voz serena, embora com o rosto todo suado e demonstrando certo desconforto com as luzes fortes, os flashes das máquinas fotográficas, as questões com alto nível de obviedade, lá estava um técnico de futebol dizendo que não se importava com opiniões discrepantes das suas. Referia-se às indagações acerca dos depoimentos do centroavante do time sobre o recuo após estar ganhando o jogo, passando sufoco para segurar o resultado. Sem climão, xingamentos e com muito respeito ele não polemizou e muito menos desmereceu o fato de jogadores por ele comandados pensarem táticas e situações do jogo por suas próprias cabeças. Outros deles já haviam, durante a semana, se posicionado quanto à forma de Abel armar o time após abrir placar favorável, fosse uma vitória ou um empate considerado difícil.

Abel não ostenta algo que seja fugaz, ainda mais nos dias de hoje. O título é algo que fica, sem fanfarronices e demagogias. Quero dizer que o Fluminense é mais um time que joga, vence, e muito, tem elenco de alta qualidade técnica e tática, e ganha títulos do que um time que se propõe a atingir níveis satisfatórios de jogadas de efeito sem mirar em títulos. As jogadas de efeito ficam, claro que sim, mas o valor simbólico e o alimento das piadas entre as torcidas estão mais ligados por importantes títulos conquistados de campeonatos competitivos. Ser campeão e jogar de forma admirável na execução dos movimentos eram coisas comuns em times que, noutros tempos, eram muito perigosos para os adversários, mesmo não conquistando um título de grande envergadura. Passei a gostar mais do que nunca de futebol vendo, ainda bem criança, o time de Telê Santana na Copa do Mundo de 1982, aquela que fomos eliminados pelo não menos bom, contudo mais eficiente, time italiano. Mas também vibrei com títulos vencidos sem que o Flu jogasse um futebol que eu admirasse, embora demonstrando muita garra e determinação, como nos Cariocas de 1995 e, com o próprio Abel, no de 2005. Perdemos o campeonato mais bacana de maneira um tanto inesperada.

O estilo de Abel é o de ser, ao mesmo tempo, pragmático e crítico. Ele foi contratado para ser campeão, principalmente da Libertadores e do Mundial. Nossos dirigentes disseram isso e ele mesmo corroborou dessa expectativa. Eles, e nós, obrigados, esperamos semanas e mais semanas pela chegada de Abel ao clube… Que pegou um time considerado bom, campeão, o reforçou, indicando Jean, por exemplo, e pediu a volta de Wellington Nem ao elenco. Não fui eu quem o contratou e se quer fui consultado. Por que eu deveria ter sido? Gosto de ser campeão, tanto quanto gosto de ver o que considero um futebol bonito, vistoso, e agradável de um time mostrar. Ao que me parece, noves fora a Neymardependência do Santos, não é comum vermos isso constantemente há alguns anos. Aqui não vou discutir as suas razões, mas sim apenas constatar um fato. Quantas entrevistas Abel deu afirmando que estava incomodado com a maneira de se jogar dos times no Brasil, o que envolve, também, os critérios através dos quais os nossos meninos já são chamados de jogadores desde os seus poucos anos de vida nas diversas escolinhas espalhadas pelos País? Alguém paga a conta, não? A vida social vem sendo conduzida por políticas, condutas pessoais e de grupos, por resultados nada relacionados a preocupações estéticas tecnicamente melhor elaboradas.

O time de Abel o obedece fora de campo e, dentro de campo, segue as orientações de Fred e Deco, bem como de alguns outros jogadores nas vezes em que aqueles dois não atuaram juntos. O Flu de Abel não é desleal, não atinge o sucesso vilipendiando canelas alheias, esforçando-se para parar as jogadas com faltas e mais faltas, não promete ao torcedor momentos lindos, mas resultados que os deixem felizes, não cala jogadores na expressão de suas opiniões, seus pensamentos, falando a língua portuguesa que conseguem articular. São opiniões dadas em público e ponto. O time e Abel não são fáceis de serem batidos, dedicam-se bastante nas partes física, tática e ainda contam com indivíduos que podem em um lance decidir, e isso ocorre frequentemente desde o Brasileirão do ano passado, uma partida, um título. Não há concessões enganosas: esse grupo não promete o que não pode cumprir, isto é, sendo triste para alguns torcedores ou não, ser campeão com tantos recordes de eficácia batidos e jogar o que se entende por um futebol bonito, com muitas variações de jogadas bem trabalhadas e criativas.

Assim como Psy que só está sendo internacionalmente reconhecido, com o Hit, que na atual indústria da música é um título de campeão (de vendas, shows etc.), sem perder seu lado crítico e dizer que ele mesmo gosta de sua nova música, o Flu de Abel só está conseguindo se firmar por meio de sua adequação aos parâmetros estabelecidos pela forma de socialização através das quais os gostos estão sendo formados. Gostos esses mais ligados aos resultados e ao prestígio que eles trazem do que à maneira de execução das jogadas para depois, quem sabe, conquistá-lo. Plasticidade sem resultados não possui mais lugar nesse nosso mundo da bola atual, o que não quer dizer que eu goste e admira isso e que não comemore os títulos do meu time por terem sido obtidos por formas de jogar outras que não as que eu mais aprecie.

Que bom que, em meio a tudo isso, Abel e seus comandados, assim como Psy, não lidam com esse cenário de maneira hipócrita – o que não é pouco nos palcos futebolístico e musical que estamos vivendo. Enquanto não vemos a junção de beleza na execução das jogadas, organização tática e criatividade com a conquista de grande títulos, como a Máquina e o time do brasileirão de 1984 faziam, vamos comemorar a boa fase e mais um possível título com o que temos, que não é pouca coisa.

Luiz Alberto Couceiro

Panorama Tricolor/ FluNews

@PanoramaTri

Contato: Vitor Style Franklin

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