O “Guerreiro” que eu não quero ser (por Rodo)

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Minha mãe tinha por hábito fazer uma limpa nos brinquedos que eu tinha, de tempos em tempos. Era uma questão de logística, morávamos em um pequeno apartamento, na Rua Correia Dutra, bairro do Catete, e como ganhávamos muitos brinquedos de amigos e parentes em aniversários, natais e dias das crianças, ela precisava “se livrar” de alguns deles. O grande problema é que essa escolha nem sempre partia de mim, ela os escolhia a revelia.

Certa vez, ao voltar da escola, percebi que ela tinha separado alguns desses brinquedos para doação. Aproveitei o instante em que ninguém estava com os olhos em mim e fui conferir os brinquedos que lá estavam. Entre eles, um cartolinha do Fluminense, cara de invocado, fraque tricolor, monóculo e uma piteira, não éramos politicamente corretos na década de 1980. A primeira coisa que fiz, com o coração acelerado e lágrimas nos olhos, foi ligar para o meu pai, o cartolinha precisava ser salvo.
Assim que chegou do trabalho, o velho foi lá e tirou o cartolinha do meio dos outros brinquedos me devolvendo a raridade (que infelizmente se perdeu no tempo e não mais o tenho). Além de salvar o pobre, deixou claro uma regra que deveria ser seguida dali por diante: “No cartolinha ninguém mexe”.

Ao longo da vida, vi alguns dos nossos rivais mudarem de mascote, o Pato Donald deu lugar ao Biriba ou ao Manequinho, no Botafogo, o Popeye deu lugar ao Urubu, no Flamengo, e nunca entendi bem qual a mascote do Vasco da Gama, um bacalhau? O seu Manoel da padaria? Não sei, mas o nosso estava lá: o cartolinha. Desenhado em 1943, a pedido do “Jornal dos Sports”, pelo chargista argentino Lorenzo Molas, o cartolinha representa o Fluminense em sua essência, não um clube de massa, mas de aristocratas, um clube educado e fidalgo, que aceita a vitória apenas quando esta vem acompanhada pela obediência das regras do jogo.
Sempre me identifiquei com ele, não por soberba, como apontam nossos rivais, muito menos pela classe social. Fui uma criança pobre, o elo entre nós não era a condição social, era a fidalguia, a superioridade em ser honrado. Como dizia Artur da Távola, ser Fluminense não é ser melhor, mas ser certo. Não é vencer a qualquer preço, mas vencer-se primeiro para ser vitorioso depois. O cartolinha era e é a personificação desse pensamento, que corrobora com a minha maneira de ser e viver.

Vi outras versões do cartolinha, uma que gostava muito, desenhada pelo Ziraldo, em que o menino maluquinho se tornava Tricolor. Em 2002, no ano do centenário, o cartola ganhou traços infantis, perdeu a piteira e se aproximou ainda mais das crianças. Tenho uma filha de seis anos, que já herdou de mim, as histórias e os cartolinhas que colecionei depois de adulto. Ensino a ela, diariamente, a importância de ser como ele, como eu, correto, honesto e límpido. A importância de ser Fluminense.

Estive presente em todos os jogos da reta final de 2009. Comemorei e chorei ao final quando o Fluminense arrancou do rebaixamento certo para a permanência na série A, que nos levaria ao título no ano seguinte. O “Time de Guerreiros” tão cantado nos estádios desde então nem é algo tão novo, existem diversas revistas, como a “Placar”, chamando nossos jogadores de guerreiros desde a década de 1980. Mas foi esse time quem recebeu a alcunha e a partir disso, tudo gira em torno de nos tornarmos guerreiros, um guerreiro que eu não quero ser.
Se ao final, o time de 2009 conseguiu um feito memorável que estará para sempre registrado na história do futebol, sua essência não merece os louros da vitória. Foi um time displicente, preguiçoso e que jamais teve o compromisso com a vitória, foi derrotado de forma irritante por grande parte de seus adversários naquele ano. Lutou como nunca na reta final, com o retorno de Fred, ao lado da desconfiança da torcida e das notícias dos bastidores de que foi premiado financeiramente após cada uma das vitórias, prêmio alto, dado pelo patrocinador. Em outra situação, esses jogadores seriam apenas tratados como mercenários, mas os milagres beatificam os homens.

Entristece-me que o Fluminense tenha aposentado o cartolinha, com tudo que ele representa, para colocar em seu lugar um guerreiro espartano. Não me sinto à vontade com crianças tendo como exemplo um soldado, pronto para a guerra. Como diria o poeta, o senhor da guerra não gosta de crianças. Eu prefiro um símbolo da fidalguia, da paz e da harmonia, como diz o nosso hino, do que um soldado que representa a ignorância humana, a guerra e a morte. O soldado está lá, de elmo e escudo, só falta-lhe a espada, o poder de ataque, talvez a melhor referência ao derrotado time de 2009.

Essa coluna é apenas um desabafo, não tem nenhum poder de escolha ou influência ao marketing tricolor, ou a atual gestão que se apaixonou pela alcunha de guerreiros. Para minha infelicidade, não seguiram a orientação do meu velho pai: “No cartolinha ninguém mexe”.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri @rodoinside

Imagem: rb/pra

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