Magno Alves: respeito (por Paulo-Roberto Andel)

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Sim, o Fluminense mais uma vez se contradisse. Em dezembro passado, prometia manter os principais astros mesclados com jovens promessas da base, mais as grandes revelações do scout world. Mas o futebol é dinâmico, o empresariado idem, as pessoas se esquecem do que acabaram de dizer e ouvir; assim sendo, aí estão os novos reforços, todos respeitáveis, um deles especial. Bastou um Carioca 2015 chocho.

Rapidamente sobre Antonio Carlos e Pierre. O primeiro, herói da casa em 2005, voltou com alguns anos de atraso. O baticum de cabeça da nossa defesa nesta temporada o credencia a disputar a posição no miolo. O segundo, “volante-volante” com bagagem e títulos. Reforços dos sonhos? Não. Mas reforços possíveis. É preciso entender que a opulência unimediana acabou.

Um capítulo à parte é a volta do Magno Alves às Laranjeiras.

Primeiro, porque o próprio jogador tentou durante anos esse retorno.

Segundo, sua contestada idade nada significa diante do futebol de artilheiro que sempre teve – nunca foi um baladeiro, entrega-se ao jogo como se fosse vida ou morte. Aos 39 anos, corre mais do que muita gente de 25.

Duvido que, com o Magnata em campo, o Fluminense passasse a dor de 2013, a frustração de 2014 e mesmo esta recente eliminação para o Botafogo em 2015 – lembremos que, no segundo tempo do jogo no Engenhão, éramos onze contra praticamente sete em campo (quatro alvinegros manquitolas) e não conseguimos fazer um mísero gol. Sem Fred, nossa referência maior, suspenso, o ataque fez água.

O terceiro é sobre algo que às vezes falta em pequena parte da torcida do Flu, no clube, no cotidiano das três cores: respeito. Bobagens recentes como a adulteração do slogan do presidente Horta ajudam a entender o processo. Respeito à história, à memória, ao passado.

Magno Alves está perto do fim da carreira. Ou talvez, mas só por causa da idade. Com sua condição física impecável e seus quatrocentos e tantos gols na mochila, não dá para dizer que não logrará êxito nos próximos meses. Poderá ser útil no banco, entrando no decorrer das partidas, fazendo jogos inteiros, ajudando a suprir eventuais ausências de Fred ou simplesmente sendo o parceiro do camisa 9.

Observação relevante: dos que apresentaram forte rejeição ao nome do Magnata, não vi nenhum lembrar-se de que dois dos maiores artilheiros da história do clube agora estão juntos no elenco. Quem se lembra quando isso aconteceu pela última vez? Telê e Orlando? Telê e Waldo? Faz bastante tempo.

Em sua primeira passagem, Magno Alves esteve presente em três grandes campanhas do Fluminense em campeonatos brasileiros: na Copa João Havelange, em 2001, mais os dois certames seguintes. O primeiro significou o retorno da dignidade com uma bela classificação na primeira fase; nos outros dois, chegamos às semifinais.

No entanto, tudo isso foi pequeno diante do que significou a luta de 1999.

Só quem viveu aqueles dias sabe o que foi ver o Fluminense urrando de dor, sangrando no chão com tiros de fuzis dia após dia, trucidado pela imprensa, sendo cogitado a fundir-se com o Bangu e trocar seu nome. Meu amigo, minha amiga, se você acha que ter perdido a Libertadores foi a tragédia maior, não sabe o que foi aquilo. A hora mais difícil da nossa história. O pescoço debaixo da guilhotina prestes a desabar.

Alguns jogadores são marcados para sempre por gols imortais, títulos fascinantes ou partidas monumentais. Ou polêmicas ou outros itens de atenção. O Tricolor já teve artilheiros fantásticos e hoje tem Fred, um de seus maiores, jogando firme com a 9. Campeões, decisivos, matadores.

Cada um riscou no chão a trilha que depois seguiu.

Mas só um deles pisou em lava quente com o diabo em seu cangote apontando-lhe a tríade em todos os dias de um ano inteiro, tentando rasgar-lhe a alma, cobiçando-lhe as jugulares.

Só um deles tinha a missão de fazer os gols que levariam o Fluminense a muito mais do que um título; na verdade, escapar da morte.

Do cemitério às escuras. Do fim. Da destruição. Da extinção.

Só um deles escreveu mais de cem gols trilhando a barreira do inferno para escapar dele.

Não havia Fred para tabelar, Deco para lançar, Wellington Nem para correr. Valencia ou Diguinho para disputar. Nenhum Mariano, nenhum Carlinhos em boa forma. Nenhum Thiago Neves. Nenhum Cavalieri.

Imagine por só um instante a REAL possibilidade do Tricolor acabar.

Ela aconteceu em 1999.

Quem viu a virada contra o Náutico da geral do Maracanã, debaixo de uma tempestade monumental, há de compreender.

Magno Alves.

Quem tem menos de 25 anos talvez não entenda o que sinto. Respeito da mesma forma.

Caros amigos e amigas, Magno não é apenas um veterano artilheiro de mais de 400 gols em final de carreira. Não. Ele é um herói de guerra.

Ao lado do Magnata naquela época, a doce fúria de Marcão pela bola, então um estreante. O maestro Valber, pesado e fora de forma, mas monstruoso nos passes e lances. O jovem Roger e tantos outros jogadores humildes, limitados, liderados pelo monumental Parreira: que outro campeão do mundo colocaria sua cabeça a prêmio para ajudar a salvar o Fluminense da morte? Quem se lembra de Emerson, Róbson, Arinélson, Jorge Luís, Alexandre Lopes? O goleiro Diogo? PC invertido na esquerda para não fazer besteiras? O garoto Marco Brito.

A terceira divisão começou com Carlão, Joel Cavalo e Betinho. Uma derrota para o Villa Nova de Nova Lima na estreia. O caos. Outras derrotas para Serra e Anapolina, vitória esquálida sobre o Dom Pedro… superação a seguir.

Magno Alves foi um dos sujeitos que, com sua luta, dedicação e dignidade, rasgou a certidão de óbito do Fluminense para sempre, jogando-a no lixo.

Não fosse por gente como ele, você não leria este PANORAMA, nem os sites e blogs irmãos, não se prepararia para a festa do próximo sábado no Maracanã, nem teria comemorado o tri e o tetra brasileiros. Não teria vivido a inesquecível reação de 2009, nem a de 2008, nem a de 2006. Não teria vibrado com o Carioca 2005, o Centenário em 2002, nem teria visto o Tricolor chegar tão perto em várias disputas de campeonatos brasileiros, nem a linda campanha na Libertadores 2008, por mais doloroso que o final tenha sido.

Simplesmente porque não haveria Fluminense.

Sem homens como o Magno Alves naquele doloroso e, por isso mesmo, inesquecível 1999, falar do Tricolor das Laranjeiras seria lembrar a história de um ente querido que já se foi. O Flu estaria morto, enterrado e exumado, dormindo num pequeno baú de ossos.

Mas felizmente não está. Sobreviveu e hoje é o tetracampeão brasileiro, com todas as suas dificuldades e (muitos) erros internos. Não morreu em 1999, jamais morrerá. Quem não reconhece a luta do passado não será capaz de construir o futuro. Estamos mais vivos do que nunca.

Por isso, o Magnata merece muito respeito.

Mesmo que tudo seja uma jornada por pouco tempo e poucas partidas.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri @pauloandel

Imagem: Julio César Guimarães/lancepress

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13 Comments

  1. ATÉ TENTEI, MAIS NÃO CONSEGUI SEGURAR A EMOÇÃO, E A LAGRIMA DESCEU DOS MEUS OLHOS. MUITO EMECIONANTE ESSE TEXTO.
    PARABÉNS ANDEL!!!! VOCÊ É O CARA TRICOLOR!!!!!

  2. Bom dia!
    Estou convencida . Usando o proverbio Português “O bom filho a casa torna” rs
    ST!

  3. Minha opinião: Tenho 42 anos e vivi a 3a. divisão. Estava no jogo em Olaria as 11 da manhã e q o árbitro desfez a marcação de um pênalti a nosso favor (respeito ao Flu? Não existia), tomei chuva na geral do Maracanã na virada contra o Náutico. Época mais humilhante para o nosso clube. Éramos zombados não só no Rio, mas em todo o Brasil. Acho besteira a chateação com o Vencer ou Ganhar. Campanha pontual. O Vencer ou Vencer do Dr. Horta está na história, não será apagada. E o Roni ajudou muito tb.

  4. Texto sensacional Andel. Emocionante, verdadeiro. Esperamos que nossa torcida
    faça uma linda festa no sábado. Apesar de distante (moro em Manaus), meu
    coração tricolor estará presente no Maraca. Abraços e ST.

  5. Texto que descreve perfeitamente minha emoção por presenciar a volta de um Ídolo das vacas magras. Mas, que nem por isso deixa de ser tão grande em nossos corações.

    Texto sensacional. Parabéns.

  6. Mais uma vez,deu show no texto.
    Bom lembrar este tempo,a lembrança é sempre oportuna para que não possamos esquecer da nossa história,para que os futuros tricolores saibam o que significa ser e torcer para o Fluminense.Já que neste periodo os torcedores tricolores fizeram indo aos jogos e jogando junto com o time,isto marca a diferença do ser Fluminense.
    Abraço e Saudações Tricolores!

  7. O texto é muito emocionante e o seu amor , o nosso, muito grande. Também respeito muito o Magnata e do alto dos meus 52 anos passei por tudo que falou evmuito mais. Mas a realidade é que prefiro ele ao gorducho do Walter. Mas para termos qualquer futuro não dá para contar com ele. Está no fim de sua trajetória . Nosso Flu tem que ir adiante.!
    Seja bem vindo Magnata, mas infelizmente passou. 🙁

  8. BOA NOITE MEU NOBRE AMIGO, SÓ ME RESTA APLAUDIR, E APLAUDIR SEU MARAVILHOSO TEXTO, POIS COMO VOCÊ MESMO FALOU, SÓ QUEM VIVEU AQUELA ÉPOCA DA TERCEIRA DIVISÃO SABE DA IMPORTÂNCIA DO MAGNO ALVES. COM TODA CERTEZA HOJE NÃO ESTARÍAMOS AQUI FALANDO DAS CONQUISTAS DEPOIS DE 1999, ABRAÇÃO IRMÃO .ST FLUII

  9. Eu estava naquela geral sob chuva, e por isso, assim como você, respeito mais do que tudo o Magnata. Parabéns pelo belíssimo texto!

  10. Amigo mais uma vez me faz ir às lágrimas. Assim meu coração safenado não aguenta. Rsrs.
    Realmente só quem viveu aqueles anos é que sabe. Consegui fazer meu filho se se forjar e se tornar um tricolor apaixonado justamente naqueles dias. E o Magnata, Roger, Roni e outros menos comentáveis, eram os heróis á cavalo, com capa e espada que eu “apresentava” ao meu herdeiro tricolor. Parabéns é redundância. Abraços tricolores.

  11. Amo seus textos, mas esse superou a todos. Foram tempos difíceis, mas Graças a Deus, passaram. Nosso Magnata viveu momentos difíceis quando a torcida gritava “bota pra vender” todas as vezes que pegava na bola, isso também passou. Que ele possa viver momentos brilhantes nesse ano corrente e quem sabe nos próximos.

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