Lucro por quê? – I (por Luiz Alberto Couceiro)

Lá pelos anos finais da década de 1960, explodia o fenômeno da guerrilha urbana no Brasil. Pessoas de diversos estratos sociais, níveis de educação formal, de prestígio, com múltiplas origens, idades e profissões, de zeladores de edifícios, operários, médicos e professores universitários, compunham grupos organizados para, pegando em armas, expropriar dinheiro de instituições que estavam ao serviço do capitalismo. A clandestinidade não era sua opção, mas a única alternativa de ação reivindicatória pela defesa de outras ideias num regime de exceção. Esse regime, desde o dia em que entrou em vigor, não mediu esforços para “desaparecer” com, ou “suicidar”, seus opositores. Esses grupos que resolveram pegar em armas de fogo como último recurso, cada um com nome bem definido e assumindo suas motivações revolucionárias em panfletos e discursos expostos por ocasião de suas ações, poderiam atuar de forma conjunta.

Noves fora discussões ideológicas, um desses grupos pretendia roubar duas altíssimas rendas: a do prêmio principal das corridas de domingo do Jockey Club do Rio de Janeiro, no bairro da Gávea, e a de um grande clássico no Maracanã, na enorme região da Tijuca. Vários de seus membros adoravam futebol, e, mesmo perseguidos pelos aparelhos estatais oficiais e oficiosos de repressão, assassinato e tortura não declarados publicamente, com suas fotografias estampadas em cartazes de “procura-se, vivo ou morto”, nunca deixavam de se arriscar pelos seus times do coração. Frequentavam o hoje repaginado estádio e conseguiam perceber a rotina de seu funcionamento.

Depoimentos informais apontam que era, nesse quesito, um dos lugares mais fáceis, se não o mais fácil, de se roubar tamanha quantidade de dinheiro. A desorganização era quase que total, e a contabilidade um tanto imprecisa pelo simples motivo de as pessoas, de tão barato que eram os ingressos, a maioria voltada para pessoas de pouca renda, pagarem-nos com moedinhas. Esse era o problema! Se o Jockey oferecia notas e mais notas das mais altas cifras que nossa moeda dispunha, o Maracanã não permitia que os “subversivos” carregassem tanta grana miúda, principalmente dos “geraldinos”, em um só veículo. Deveriam usar ao menos três carros, e isso daria uma bandeira danada, tanto no local quanto ao longo do trajeto, para quem por ali estivesse, de que algo estranho estaria ocorrendo. Mesmo com a mudança de carros no meio do caminho, havia a possibilidade de serem perseguidos por policiais de plantão ao redor do estádio. Além disso, era provável, segundo alguns dos participantes do grupo, que os sacos não aguentassem o peso dos trocados e acabassem furando.

O argumento dos guerrilheiros era simples. O dinheiro em tese seria usado para pagar jogadores, contudo haviam feito a contabilidade e, também como torcedores, indignaram-se ao perceber que algo ocorria de muito estranho no trajeto entre a bilheteria e os bolsos dos atletas. Desse modo, mesmo que a quantia não fosse se quer próxima aos lucros de portentosas empresas e dos bancos, espoliar a renda de um jogo de casa cheia, para aqueles guerrilheiros, era dar uma cutucada em atravessadores que se aproveitavam da bagunça administrativa do estádio para sair ganhando sem trabalhar. Era “usar o dinheiro do povo, impedindo que parte dele fosse roubado, para lutar contra o regime ditatorial que tanto o oprimia”, disse um anônimo personagem do quase-evento. Enfim, viram que a logística era por demais complicada e arriscariam demais a estruturação do grupo, documentos, e, claro, a vida de seus integrantes. Desistiram de executá-lo.

Ora, não se trabalhava em termos de lucro no futebol de todos os tempos, até o início dos anos 1990. Melhor dizendo, majoritariamente. Os clubes se bancavam, muitas vezes ficando no vermelho. Como muitas associações que envolvem grana no Brasil, claro, sempre há os espertalhões de plantão. Para esses, se há uma latinha de sardinha ou uma pasta de dólares, todos os riscos valem a pena.

Lendo séries dos principais jornais do Rio e de São Paulo, nota-se que isso se quer era discutido, pois simplesmente não fazia parte dos assuntos centrais. O importante era a revelação de jogadores e a capacidade de negociação dos dirigentes, além, claro, de vencer títulos. Mas negociar não é sinônimo de lucro financeiro!

As rendas eram usadas, além de mensalidades do quadro social dos clubes de futebol, para pagar os salários dos jogadores e a contratação de outros mais eram bancadas por dividendos de negociações, muitas vezes na base do troca-troca, ou das excursões ao exterior. Era comum, inclusive, que jogadores saíssem de um clube para outro por amizade a algum dirigente, técnico ou colega de profissão. Havia casos de satisfazerem desejos seus, de menino, ou de algum parente, amigo ou vizinho querido. Também ocorriam desavenças internas nos vestiários e dependências das sedes dos clubes e das concentrações que descambavam em idas e vindas abruptas.

O vocabulário das notícias, repito, grosso modo, até o início dos anos 1990, em momento algum mostra a presença marcante de indivíduos denominados como “empresários”, que fizessem contatos entre clubes ou pessoas para fechar negociatas. Reza a lenda que, em algumas vezes, atletas fizeram parte de mesas de aposta de carteado, através de seus contratos, e assim dirigentes montaram grandes times que marcaram a memória de torcedores cariocas.

Portanto, vêm a seguintes questões: o clube é uma propriedade privada, no Brasil? Os jogadores são empregados de quem? A torcida e a população em geral têm o direito de saber como andam as finanças de agremiações que, a partir de certa data, passam a gerar receitas sem pagar inúmeros impostos? A quem os dirigentes devem explicações? Por que tantas contas não são honradas e diz-se que uma entidade amorfa, “o clube”, é a culpada? São essas as chaves de entrada no que vamos discutir nas próximas colunas dessa nova série.

Luiz Alberto Couceiro

Panorama Tricolor

@PanoramaTri

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