Guerra e paz (por Walace Cestari)

GUERRA E PAZ

A violência é a palavra da moda. Nos jornais, chamam vândalos àqueles que se manifestam de uma forma mais aguda, estilhaçando vidraças. Pois é, em um mundo onde as vozes não são ouvidas, a pedra ainda funciona como um excelente meio de comunicação. Parece que só assim a mídia e alguns representantes do povo lembram-se de que o poder deve ser exercido em prol da sociedade. Esta é uma discussão longa, mas aqui serve de preâmbulo aos próximos parágrafos.

É de violência que foi construída igualmente a história das torcidas organizadas do futebol. Lamentável que assim o seja, mas é um fato inegável. Não que sua criação tenha se dado em função da violência ou tendo por esta a principal finalidade. Decerto que não: as torcidas representam a paixão pelo futebol, por suas agremiações e a vontade de fazer do jogo um verdadeiro espetáculo de cores, cantos e braços. Unidos pela mesma emoção, influenciando o placar e vivendo a cada noventa minutos uma nova vida inteira.

Entretanto, ao longo do tempo, o que era rivalidade tornou-se brutalidade. Estúpida. Uma violência diferente da pedrada ideológica que estilhaça a vitrine dos bancos. Um comportamento típico das piores gangues. Por vezes, nem mais a identificação clubística lhe fazia sentido. Torcidas de um mesmo clube são rivais e têm, naquelas dos rivais, aliadas para a violência gratuita. Inadmissível, inaceitável.

A torcida do Vasco faz ameaças gravíssimas à vida dos torcedores que querem assistir a uma partida de futebol. Em lugar de qualquer providência real, as autoridades capitulam à barbárie e sugerem alguma razão a marginais travestidos de torcedores. Direitos, contratos e tradições à parte, os vascaínos concordarão que não é são ameaças físicas que constroem a grandeza de um clube. Estupidezes seguidas de maiores estupidezes. Paga-se hoje o preço pela pouca importância aos fatores causadores da violência nos estádios.

Há muito os torcedores são tratados como animais, sendo submetidos a violentos currais para a compra de ingressos ou entrada nos estádios. A própria divisão entre torcidas dá o tom para o aumento dessa sensação de que não há adversários, mas inimigos. Não há possibilidade de assistir a um jogo junto de um amigo que torça para outro clube. Isso já foi possível em outras épocas e não pode ser impossível nos dias de hoje. Será que sentar-se ao lado de alguém com camisa diferente cria o psicopata automático, com tendências homicidas irrefreáveis?

Os estudos sobre a natureza humana apontam exatamente para o contrário. Quando se reúne um grupo, a sensação de poder de uma massa unificada leva o indivíduo a realizar atos que jamais praticaria se estivesse sozinho. Estimula-se, quase que autocraticamente, a violência, a criação do “inimigo” e os instintos mais primitivos do ser humano. Apesar disso, crê-se que é essa a solução para a violência.

Torço hoje para que boa parte da torcida do Vasco compre ingressos do lado do Fluminense. De verdade. Ao quebrar a composição dos grupos, o sujeito individualiza-se novamente, volta a ser o cidadão que é fora do estádio. E percebe que os outros, com outras camisas, são pais, filhos, mães, professores, médicos, advogados, motoristas, enfim, seres humanos exatamente como ele: explorado pela sociedade e que encontra a válvula de escape em um estádio de futebol.

Que o futebol possa unir as torcidas para que percebam que as revoltas devem ser canalizadas contra os poderosos. Que nossas bandeiras tremulem em oposição, junto às nossas paixões e que possamos uni-las contra quem verdadeiramente nos explora. Que tenhamos um clássico esportivamente bem disputado (que vença o Fluminense!) e emocionante nas arquibancadas (ainda existe isso no Maracanã?). Somos, ali, todos povo. Do mesmo jeito explorados. Flores aos companheiros que torcem para o outro time. Pedras aos poderosos que nos oprimem. Paz entre as torcidas. Guerra à burguesia.

Walace Cestari

Panorama Tricolor

@Panorama Tri

Imagem: Cândido Portinari

3 Comments

  1. Já havia comentado sobre a ameaça da torcida vascaína, explícita, covarde e pior, na cara das auatoridades, providências deveriam ser tomadas, mas até agora não vi nada, lamentável. Essa sensação de impunidade gera mais e mais violência.
    Paz entre torcidas ainda acredito, citarei uma frase do Ronaldo “Fenômeno” dita durante a festa do Brasileirão 2010 que, talvez, exemplifique esse sonho, para alguns, utópico, de ver um estádio sem muralhas, porta-aviões, mísseis nucleares ou qualquer coisa do tipo:

    “Para amar um clube, não precisamos odiar o outro.”

    Nota: Ao sair do clube hoje pela tarde, depois de ter pego meu ingresso e almoçado no Bar dos Guerreiros, cruzei com o Rodrigo Caetano, o comprimentei e ele me perguntou se eu tinha sido bem atendido no clube, se havia demorado a pegar o ingresso, confesso que me surpreendi, olhei para o meu peito e vi que não estava com o crachá da minha empresa e pensei: Como ele descobriu que era eu, porque se importou comigo? Brincadeiras a parte, é que durante a espera na fila, toda hora vinha um funcionário e perguntava se havia algum sócio-proprietário ou contribuinte, pois os mesmos tinham prioridade em trocar seus ingressos, em um outro ponto, vazio por sinal, indignado e me sentindo discrimado,na mesma hora escrevi um e-mail “meio” mal criado para o marketing do clube. Parece que o Caetano anteviu, rsrsr
    Adorei sua atitude, digna do clube onde presta serviço.

    Saudações Tricolores

  2. Paz entre as torcidas… PAZ COM A BURGUESIA… VIVA A DEMOCRACIA !!!!!

    ST4

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