O imortal gol de barriga, 20 anos depois (por Paulo-Roberto Andel)

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o mundo e as suas dores/ somos imortais/ o mundo em dois segundos/ nossas lágrimas num instante/ e todas as veias abertas jorravam o sangue da vitória/ nunca fomos tão tricolores/ tão estupendos/ tão senhores dos nossos corações perfeitos/ um gesto/ um lance/ a eternidade é um romance inconteste

O futebol não é mais o mesmo de vinte anos atrás. Nem há clássicos com mais de cem mil pessoas no outro estádio que colocaram no lugar do Maracanã. O placar não pisca mais suas lâmpadas, formando letras gigantescas. Tudo mudou.

Mas é impossível não pensar naquele dia, naquela tarde, naquela noite de 25 de junho de 1995. As ruas não tinham nome, o céu não tinha limites. Cem anos em dez segundos.

Antes do antológico gol de barriga, o clássico final daquele campeonato já era um dos maiores Fla-Flus de todos os tempos, num ano em que o Tricolor predominou. E teria sido a maior injustiça de todos os tempos se a vitória do Fluminense não se confirmasse. Porque foi um verdadeiro massacre das Laranjeiras nos dois tempos, até o momento em que eles fizeram seu gol. E, logo depois, o segundo.

Em seis minutos, o mundo veio abaixo e os pré-campeões explodiram. Com razão: jogando pelo empate, dez contra nove, dez minutos para o fim do jogo, 80% da torcida, eles tinham a faca e o queijo na mão. No entanto, um pouco de prudência não faria mal: Assis duas vezes, Flávio e até o 2 a 2 da Lagoa em 1941 eram indícios de que a certeza no futebol é algo volátil demais, demais o suficiente para apostas de olhos fechados.

O Maracanã explodiu do outro lado, enquanto olhávamos uns para os outros. Sorlei expulso, Lira justamente expulso. O mundo estava contra nós. O mundo gritando o título, nós buscávamos o abraço do improvável, alguma caridade nas mãos de um irmão.

Em um dos momentos culminantes de sua vida, o Fluminense não se acovardou de forma nenhuma. Estava ferido de morte. Tudo parecia perdido. Só a fé explicava a chance de um improvável terceiro gol. E quando ele aconteceu, a verdade é que ficamos atônitos. Queríamos muito tudo aquilo, mas as cenas finais da peça foram absolutamente improváveis. Nossos operários implodiram um império em cinco segundos.

O maior gol de todos os tempos foi marcado pela única pessoa que sabia de sua autoria em todo o estádio: Renato, o craque que estava acabado para o futebol no começo de 1995, não tinha clube, havia sido demitido do Atlético Mineiro e viu no Fluminense – de quem ele tanto debochara um dia – a única mão amiga estendida em sua direção. A gratidão virou simbiose, paixão e eternidade, paga com juros infinitos. Meses avassaladores.

Foram segundos e segundos de êxtase, não “apenas” os de um grande gol ou mesmo de um título qualquer. Era o terceiro gol na terceira vitória sobre o time do melhor jogador do mundo naquela temporada: Romário, o artilheiro da Copa de 1994. A poucos minutos do fim da partida e depois de nove anos sem conquistas, onde a bola bateu na trave diversas vezes: 1988, 1991, 1992, 1993, 1994.

Os dois ou três minutos seguintes ao gol de barriga mudaram a minha vida para sempre. Por causa deles, escrevi um livro sobre o assunto.

Milhares de pessoas chorando e gritando muito, desespero e êxtase, torcedores desmaiados na geral. Sempre me lembro de um senhor, provavelmente já falecido, ajoelhado num dos degraus da arquibancada e gritando “Eu vivi para ver isso!”. Muita gente do Fluminense não testemunhou aquele gol in loco, mas todos sentiram: aos poucos, os estreitos túneis de acesso ao anel das arquibancadas ficaram entupidos de gente subindo, gritando, cantando, num carnaval louco com trilha de Pink Floyd – um show de cores, a percepção apurada, um sentimento de música lenta e, do outro lado, o maior cemitério vivo da história do Rio de Janeiro e do Brasil – ou o maior acervo de estátuas pré-campeãs de todos os tempos. Enquanto isso, Lima também era expulso, Wellerson fazia milagres e o Flamengo se curvava lentamente, enquanto Kleber Leite cancelava a festa da vitória certa através de um grande celular tijolão. Nunca fomos tão tricolores quanto naqueles instantes mágicos: morte e vida, derrota e vitória, caos e superação, drama, drama, drama, lágrimas, uma alegria que não se pode mensurar.

O Fluminense vivendo o filme de sua vida em alguns grãos de ampulheta. Cinco minutos levaram um ano para passar. Quando Leo Feldman pediu a bola e Renato se ajoelhou para chorar compulsivamente, eu continuei parado no meu lugar. Não movi um músculo. Na verdade, eu estava em choque com a minha própria felicidade. O impossível estava ali: suado, extenuado e vitorioso.

Olhando para as coisas, as pessoas, os detalhes, vendo a explosão da nossa torcida em amor e fúria libertadora enquanto o outro lado aplaudia. Olhando para tudo. A coisa mais inacreditável que todos os tricolores já tinham presenciado no Maracanã. Eu nunca tinha visto nada parecido e não vi nada parecido pelos vinte anos seguintes.

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Depois de todos os grandes títulos e vitórias já testemunhados no passado, desde criança, foi naquele dia do gol de barriga que eu realmente entendi o que É O Fluminense.

Estávamos do lado direito da tribuna de honra do antigo Maracanã. Muitas vezes eu voltei lá em jogos mais vazios e olhava para o campo, revendo imaginariamente aquilo tudo. Coração em slow motion.

Em memória daqueles dias incríveis, escrevi um livro, estou finalizando outro com amigos, talvez faça mais. O dia em que Renato foi o Rei do Rio é um rio interminável. Quanta gente boa já se foi, a começar pelo querido Ézio, em sua última partida com a nossa camisa?

Depois daquele dia antológico, o Tricolor já sorriu demais e já sofreu muito também. Viveu intensamente. Um dia, conquistará o único título que ainda lhe falta – a Libertadores. Um dia voltará a ser campeão do mundo, tal como em 1952. Mas tenham absoluta certeza: igual ao dia do gol de barriga, nunca mais.

Nunca mais.

E a cada 25 de junho, este mesmo nunca mais será o eterno presente em que vivemos.

Ninguém havia vencido o Flamengo, a imprensa esportiva e a televisão juntas numa final de qualquer campeonato com apenas oito jogadores em campo até aquele dia. Um fato que nunca mais se repetiu – e você apostaria que se repetirá? O empate era deles. Mas a história já era nossa há muito tempo.

Todas as vezes que penso, vejo à tela ou escrevo sobre aquele 25 de junho, o amor eterno é inevitável. Foi a maior alegria de minha vida como torcedor. Foi o dia em que o Fluminense calou um país inteiro com a corrida solitária daquele maluco admirável de faixa na testa e com a vitória no peito, nas estranhas, na alma. O time que erroneamente foi desprezado pela mídia – com exceção de gente como Washington Rodrigues – não deu espaço ao pré-campeão contando com o então maior jogador do planeta Terra. Ficou no cangote do começo ao fim, para dar a rasteira final na última volta na pista.

Não troco dez rebaixamentos ou dez finais perdidas por estar lá exatamente naquele momento e naquele Maracanã que desencarnou. Sem problemas: basta pensar naquilo tudo e somos todos fullgás: a vitória nos abre seus braços e o Fluminense faz um país.

Agora sim de olhos fechados, sou capaz de rever tudo. O amor está intacto. As cenas. Lembra o Supertramp: It was the best of times. Ou It´s raining again.

Chove de novo na memória de cada torcedor que lá esteve, viu, ouviu no rádio, sofreu em algum lugar e foi uma das testemunhas, próximas ou não, do maior gol de todos os tempos.

Ao final daquela partida imortal, dezenas de milhares de flamengos bateram palmas efusivamente, reconhecendo o que tinham acabado de testemunhar, mesmo diante da derrota. Quem viu Assis em 1983/1984 entende a grandeza daquele 25 de junho, que não acabou até hoje.

Por um instante, é hora de deixar de lado as cartolagens, as vaidades estúpidas, a arrogância oca, o divisionismo cretino, a lenta degradação do futebol brasileiro, este cercado por uma parte chinfrim da sociedade. Um minuto sem pensar em facadas, balas perdidas, mortes absurdas, egoísmo, falsidade, fome, dor e hipocrisia.

Tudo de lado para sonhar com aquela tarde e noite únicas na vida do Fluminense, do próprio Flamengo e de todos os que acompanharam futebol naquele dia de chuva, que virou a mais ensolarada das madrugadas.

O maior jogo de todos os tempos.

O maior de todos.

Em memória de Ézio Leal Moraes Filho

Panorama Tricolor

@PanoramaTri

Imagem: pra

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reve generale

3 Comments

  1. Aquele dia ainda não acabou, se estende magicamente até hoje. E nunca vai acabar. E se um dia acabar pra mim, continuará para os sobreviventes. O dia mais longo da vida de um tricolor, 20 anos já se passaram e aquele dia não termina, jamais terminará.

  2. NOSSA….QUE CRÔNICA ANDEL…DE ARREPIAR…VI ESSE DIA AOS MEUS 12 ANOS DE IDADE. INESQUECÍVEL.

    ST

  3. Maravilhoso, meu amigo, é recordar esses momentos mágicos por tuas palavras. A cada 25 de junho, por toda a eternidade, nós e eles viveremos novamente essa partida antológica, com a diferença de que a vitória será sempre nossa. Um abraço e ST

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