Funcionalismo público (por Aloísio Senra)

Aloisio Senra

Tricolores de sangue grená, antes de mais nada quero dizer que sou funcionário público. Trabalho como professor concursado em uma escola do município do Rio de Janeiro e, portanto, falo com propriedade sobre o cargo que ocupo. É verdade que hoje temos um funcionalismo público que deixa a desejar em alguns setores, muito por conta da dita estabilidade. Mas quem está no meio sabe que existem tanto bons quanto maus profissionais – cenário este que se repete também no setor privado, talvez sem tanta evidência devido à facilidade – e também falta de critério – com que se demite os funcionários.

Há, desde semana passada, uma discussão em voga sobre a possibilidade de se limitar a troca de técnicos que cumpram mais de seis partidas no Campeonato Brasileiro. Na verdade, há notícias de novembro de 2015 em que dirigentes do Atlético-MG faziam essa sugestão e notícias do início de fevereiro, desse ano, que davam conta do estudo que a CBF já fazia. Logo, era algo que já estava “no ar” há algum tempo.

Com a medida, um time não poderia demitir seu técnico no Campeonato Brasileiro caso ele cumprisse mais de seis jogos com a equipe, assim como os jogadores que ultrapassem esse limite não podem ser negociados com qualquer outro clube do Brasil.

É evidente que no Brasil existe a cultura da troca de técnicos quando o time não vai bem. Os contratos longos são, em sua esmagadora maioria, mentirosos, pois boa parte dos treinadores não os cumprirá até o fim. Embora eu entenda que deva haver um tempo mínimo para se cobrar que o trabalho do treinador surta o efeito desejado, como mensurar isso? Vejam o exemplo do Eduardo Baptista. Esteve à frente do Fluminense por quase seis meses e teve um aproveitamento ridículo. Não seria esse tempo o bastante para que o time mostrasse alguma evolução? Tivemos apenas algumas contratações em relação ao ano passado, não justifica demorar tanto para entrosá-lo ou fazê-lo apresentar um padrão tático mínimo.

Vejo essa medida da CBF com extremo temor. Muitas vezes, quando fizemos campanhas claudicantes, o que nos salvou do rebaixamento foi exatamente a troca de treinador, seja lá pelo motivo que for. No ano em que estivermos na draga, por alguma razão, e não pudermos questionar o trabalho do treinador por conta de uma determinação da CBF, como fica? A confederação pode intervir nos interesses esportivos – e até financeiros – de uma agremiação a esse ponto? Não dá para olhar apenas o lado do treinador, uma vez que ele, como profissional, pode trocar de ares a qualquer momento também – como vários já fizeram conosco (vide Muricy em 2011).

O futebol é um esporte competitivo e que gera uma fortuna. Os interesses de um clube e de sua torcida não podem ser tolhidos por uma canetada. Se por um lado, os jogadores poderão passar a cooperar mais (já que não haverá como trocar mesmo o treinador), por outro lado, ele pode começar a querer inventar e fazer as experiências que quiser, pois mesmo que seja cobrado sua cabeça não estará a prêmio. Não creio que esse funcionalismo público no futebol vá funcionar e sou contra ele. Que se encontre um meio termo para essa questão sem proibir um clube de escolher o que é melhor para o seu futuro.

Curtinhas

– Levir não é bobo e não conseguiu os últimos resultados apenas por sorte. O time ainda está uma draga, mas ele já está começando a tentar mudar isso. Seu currículo e o passado recente do time justificam termos toda a paciência do mundo com ele. Culpi é nossa melhor – e talvez única – aposta para não termos um ano perdido.

– Placar para o clássico? Um a zero, gol de Gum. Ganhar Fla-Flu é normal.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri

Imagem: AS / PRA

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