Fla-Flu: 101 anos (por Paulo-Roberto Andel)

FLA-FLU 101

“A cada quinze anos, o Brasil esquece os últimos quinze anos”. Uma das madeleines do meu mestre Ivan Lessa foi certeira na definição das cousas por aqui, terra brasilis.

Morre um gigante, as pessoas lembram “Ah, era o máximo!” e fica por isso mesmo.

Quem sabe das grandes lanchonetes de Copacabana há trinta ou quarenta anos? Bonino´s? Bill’s? Akay? E a Genova da Figueiredo Magalhães, com pizza brotinho e sorvete Rico? Ice cream soda dos Supermercados Leão? Todo mundo já esqueceu. Ou quase. Ainda bem que a sorveteria Bolonha permanece intocável na esquina de Constante com Barata Ribeiro, perto da casa de Analu.

Então, convenhamos: o que passa de cinquenta anos no Brasil é fabuloso pela própria natureza.

E cem anos?

Pois bem: amanhã o Fla-Flu completa cento e um anos. O segundo século é uma realidade.

Pelo jogo imortal já passaram gigantes do Olimpo: Marcos Carneiro de Mendonça, Preguinho, Domingos da Guia, Evaristo, Didi, Telê, Carlinhos, Nelsinho. Nelson Rodrigues e Mário Filho, lendas imortais.

Eles comemoram feito os maiores do mundo. O que nos basta é ser os maiores da cidade.

Zico fez dezenas de gols, nenhum decisivo. Ézio retrucou, mas saiu campeão do centenário. Júnior fez um golaço nas poucas vezes em que levaram a melhor nas finais – e comemorou, mas pensativo. Assis fez poucos gols, mas que valeram por um século. Precisa dizer de Renato Gaúcho? Não.

Acontece que a mística e a importância do Fla-Flu desafiam definições. Não precisam de apenas grandes finais e jogos decisivos. O Fla-Flu é tão importante que um gol num jogo sem grande importância pode fazer de seu autor um herói. O garoto Alexandre em 1991, o esforçado Amauri em 1982, Zezé Gomes em 1981. E aquele voleio maravilhoso do Conca? Os goleiros? Fillol falou demais, Cantarele foi sério, Zé Carlos infelizmente já se foi – e tome Félix, Renato, São Paulo Victor, Berna, Cavalieri impetuoso no pênalti centenário em 2012.

O Fla-Flu é tão importante que, se fosse uma mulher, com certeza seria a mais linda do mundo com J maiúsculo. Nas nossas arquibancadas? Luísa, Caroline, Marina, Bruna, Priscilla, Larissa. Sim, eles também têm – e a Mariana é de arrebentar! Ponto.

Marcas que ficam para sempre – “quero ficar no teu corpo feito tatuagem/ que é pra te dar coragem/ pra seguir viagem quando a noite vem”, a poesia intocável do gênio tricolor Chico Buarque – e ele fez mais: dedicou ao amigo rubro-negro Ciro Monteiro uma canção brincando a respeito do clássico.

Trinta e cinco anos de arquibancadas depois, nunca esqueço de meu começo: primeiro, colocamos água no chope deles na Taça Guanabara de 1978, 2 x 0, Edinho jogou muito. Depois, num domingo de muita chuva, eles retrucaram com uma sonora goleada de 4 x 0 – Wendel usava uma linda camisa verde, Miranda era nosso Marius Trésor. Mas logo veio 1979, Pintinho foi um monstro de Saldanha, Paulinho Goulart calou Zico e mais cem mil pessoas, eu fui a criança mas feliz do mundo e procuro aquela alegria até hoje. Em 1980, Claudio Adão, nosso algoz em 1978, foi o artilheiro do campeonato com nossa camisa e fomos os grandes campeões, todos de branco contra o Vasco.

Mas quem sou eu para falar de um clássico que nasceu sessenta e seis anos da minha estreia no estádio maior?

Eles falam e falam de 1963, um empate sem gols, nós replicamos com 1941, empate em 2 x 2. E Baena? E Welfare? Barthô na primeira vez em que nos enfrentamos, eles favoritos como sempre, 3 x 2 para nós, o placar emblemático. Mozer foi um craque deles, Ricardo um nosso, um belo dia os dois jogaram juntos e foram eleitos a melhor dupla de zaga da Europa.

Já adulto, em 1995 eu vi o maior jogo de toda a minha vida. Fiquei tão impactado que, um dia, prometi a mim mesmo: ia contar a história daquele dia direito, o que ninguém fez durante um longo tempo. Em maio passado, meu terceiro livro falou de tudo o que eu vivi naqueles meses incríveis que culminaram num Fla-Flu de arrebentar aortas e carótidas. Gol de barriga! Gol de um século!

Dos tempos da rua Guanabara à Gavea, de São Januário ao Maracanã de tantas paixões e agora redivivo – esperamos! – o Fla-Flu é inegavelmente o maior clássico do futebol brasileiro. Reúne cores, diferenças, dilemas, o eterno favorito contra o eterno azarão – tudo em aspas, uma história de vaivém como se Tyson e Ali pudessem se enfrentar e se abraçar ao fim.

Não existe futebol sem o outro e, por isso, neste novo aniversário, fica o meu respeito permanente ao rival, na figura de seus torcedores, jogadores, dirigentes, a enorme torcida que abriga muitos de meus amigos. E, por isso mesmo, não farei nenhuma provocação com sugestões matemáticas do tipo 8 x 3, 11 x 3 ou assemelhados. Disso a história se encarrega.

Amanhã vai ter Fluminense x Botafogo, outro clássico legendário – e mais antigo, inclusive. Com todo respeito ao rival alvinegro, deveriam ter programado o Fla-Flu para o dia da celebração. Coisas de dona CBF.

Meus queridos botões estão em minha casa. O velho rádio já não é mais ligado, não tenho as resenhas de meu pai resmungando, minha mãe aflita. É uma saudade que dói e dói. Outro dia mesmo, 1978, agora estou tão longe de tudo. Mas do Fla-Flu não: ele permanece, é chama viva, é paixão, é briga de gigantes, duas estrelas Vega cortando a Via Láctea para sempre – e, se bobear, os anéis de Saturno ficam às vezes pintados de tricolor e rubro-negro.

Os anos vão passando, os séculos giram, o Fla-Flu é a noite que nunca termina.

Eu gosto da boemia.

Eu amo o Fla-Flu.

Paulo-Roberto Andel

Panorama Tricolor

@PanoramaTri

Imagem genial: Ziraldo

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