Ézio é meu talismã (por Paulo-Roberto Andel)

Esta foto diz muita coisa.

O Fluminense que se reconstrói a cada perda ou luto.

Dos dramas, sonhos, dos amores, da fé, da delicadeza.

Ézio era – perdão, é – tricolor demais.

Jogando sempre em times modestos do Flu, disputou títulos nos quatro anos em que vestiu a camisa 9 das Laranjeiras – não por acaso, está no rol dos maiores artilheiros da história do clube.

Leal no próprio nome. Amigo, fidalgo, simples. É difícil ver um torcedor daquele tempo que não o reconheça pela educação com as pessoas, pela gentileza.

Um agregador de gente em torno de si.

Meu herói. Nosso.

Ézio também perdeu uma final para o Flamengo. Nos noticiários e flashbacks da TV, você só saberá que foi uma “goleada do Mengão” (por dois gols de diferença), mas pesquisando você descobre que ele fez um gol de placa no primeiro tempo, que o Flu levou três gols no segundo tempo porque jogava com nove homens em campo, que descontamos bravamente para 3 a 2 e fomos atrás do empate, loucamente, 9 contra 11 mesmo, e aí tomamos o quarto gol. Toda história vai muito além das manchetes, geralmente oportunistas.

Quase o Brasileiro de 1991, quase o Carioca do mesmo ano. A Copa do Brasil que foi tungada de nossas mãos em 1992. O Carioca de 1993, com seu Daniel Pomeroy deixando a cera comer a favor de Eurico. O Carioca de 1994, que bateu na trave no último jogo do quadrangular. Muita gente fala dos “tempos medíocres do Fluminense” entre os anos 1980 e 1990, mas nunca soube direito quantos títulos foram disputados de igual para igual em tão pouco tempo. É, certo descaso pode levar um ou outro a esquecer da nossa história, aí vem um desavisado e acha que fundou o Fluminense, outro pensa que fundou a torcida e por aí vai.

Fez o que tinha de fazer: gols, gols, gols. Só ficou chateado uma única vez, quando não vinha bem fisicamente e acabou no banco em 1995. Mas em seu último jogo ele deu seu principal passo para marcar de vez seu nome em Álvaro Chaves: quando tudo parecia perdido, mais perdido do que em qualquer outro momento das nossas vidas, Joel Santana o sacou do banco para o campo. Sabe aquele monumental gol de barriga? Começou com o pezinho do Ézio no círculo central. E se o Renato não faz o maior gol de todos os tempos, logo atrás dele estava o super-herói das causas impossíveis. Era o último jogo e não sabíamos. Droga.

Lembrar de Ézio é lembrar do Fluminense da minha juventude, de um tempo de faculdade feliz na UERJ – onde vivi às turras com Marcus Vinicius Caldeira por 850 vezes para, um belo dia, rirmos muito e criarmos este blog que você lê – de um Brasil difícil e violento pacas, mas nem de longe banhado pelo oceano de ódio que vemos hoje, feito espuma de sangue a brilhar.

Jogos de geral, de arquibancada, em Campo Grande, em Niterói, qualquer lugar. E de um Fluminense que, mesmo desacreditado, era valente a danar, lutava até o fim. Um Fluminense liberto, de amizades, de cooperação numa hora difícil, onde nem se podia pensar em ex-candidatos coléricos, militantes risíveis, senhores feudais de arquibancadas, nada disso. Era outra coisa, era amor. É o que anda faltando por aí nas mentes mais perturbadas: amor.

Hoje à noite a luta continua, tem jogo importante contra o Liverpool, não dá para lamentar roubalheira ou frango. A vida continua, não é assim que dizem? Então, se o caso for de escolher um talismã, eu já escolhi o meu.

Sinistro, muito sinistro o Super Ézio que, onde quer que esteja, sempre será motivo de felicidade, lembranças e lágrimas para todos os garotos que corriam atrás dele na geral sempre que marcava um dos seus inúmeros gols pelo Fluzão. Eu era um deles.

Amor, dedicação, empenho, sentimento. Tudo que serve de bom exemplo para essa garotada que, embora tenha tropeçado no final, tem feito um 2017 muito legal, pra cima.

A foto é bonita demais. Ela fala de amor, o que é muito mas nem sempre é para todos, uma pena.

PS: se for mesmo a hora do fim, ou perto dela, que se tenha respeito a Cavalieri, como também deve a Gum por exemplo. É certo que o goleiro tem falhado e já estamos há cinco anos de 2012, mas nada justifica qualquer linchamento. O apreço à nossa própria história cai bem.

Colaborou Fabiano Artiles

Panorama Tricolor

@PanoramaTri @pauloandel

Imagem: rap/curvelo

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

 caracteres