Dunas tricolores (por Eric Costa)

eric green

A cidade sempre foi do Sol.

O imponderável, porém, sempre está a postos para surpreender.

Caprichosamente, deixou-se que a estrela brilhasse com toda intensidade pela manhã. Sobrenatural e Gravatinha, meus amigos, não gostam de palcos vazios. Não deixariam, logo, que qualquer intempérie esvaziasse de cores aquele Fla-Flu.

Um Fla-Flu em longínqua ectopia de seu sítio natural, é verdade. Mas um clássico com o mesmo charme que se fosse jogado no Maracanã. Um jogo que viria a premiar alguns que sofrem com um dos mais covardes obstáculos aos sentimentos humanos: a distância.

Ah, em tão poucas variáveis da vida dígitos numéricos podem representar tanto. Embora o amor ao tricolor jamais respeite latitudes ou longitudes, ver cair os quilômetros que se interpõe entre o coração dos tricolores do Nordeste e o pavilhão que os encanta em um súbito de poucos dias soa como uma profunda realização. E, em essência e sentimento, é puramente isto.

A vida daqueles que moram longe ou simplesmente por força do destino necessitaram voar para longe daquilo que tanto amam segue roteiros clássicos.

Quantas vezes o deitar no travesseiro não nos fez pensar nos jogos que o Fluminense venceu sem você lá perto? Quanto uma vitória não o levou a pensar nas músicas que poderia ter cantado junto com outros torcedores, mas o que no máximo ocorreu foi seu vizinho escutar seu grito rasgado em desabafo na hora do gol? Por quantas e quantas vezes um gol ao crepúsculo do segundo tempo não o pôs entre o céu da vitória e o inferno de não poder estar nas arquibancadas?

A vida de quem está longe de suas fortalezas sentimentais é um paradoxo eterno. É sorrir ao se verem os motivos que te prendem onde você está, mas sentir o peito doer quando certos sonhos que poderiam estar sendo vividos não o são pelas nuances de um país continental.

Sobrenatural de Almeida não embarcou para Natal. Se este ectoplasma comete o pecado de sempre tentar trapacear nossos triunfos, aderir à preguiça capital é mais do mesmo. Perspicaz que é, porém, mandou sem avisar um inusitado correspondente: uma tempestade, pontualmente às 15:00, como há muito tempo não caia sobre as areias potiguares nem sobre o sedento sertão.

Ah, caro leitor, você já me conhece há tempo suficiente para saber que não ponho aqui palavras ao sabor da aleatoriedade: é neste sedento sertão, pouco conhecido para tanto, em que o Fluminense encontra o terreno fértil de ser intensamente amado. É de 180, 270, 400 km a dentro das reentrâncias do semiárido que emana mais do que o ardor do solo rachado e castigado: incandesce dali um sentimento enorme de amor ao Tricolor.

E foi da terra árida de Caicó, dos pedregulhos de Currais Novos e das salinas de Mossoró que vieram centenas, ora espremidos nas vãs e ônibus, ora na arquibancada da Arena das Dunas.

Foi destas terras abençoadas por ter um povo aguerrido que as centenas sofreram o milagre da multiplicação. Um evento metafísico e rodrigueano por essência: poucas vezes na história tricolor, a profecia de que uma torcida não se vale por sua expressão numérica, mas sim pelo imperecível estandarte de paixão fez tamanho sentido.

“Eles” eram 80. 90% para alguns. “Eles” intitularam-se há mais de duas semanas como vencedores certos do confronto.

A falácia, meus amigos, sempre foi característica do lado oposto.

Ser Fluminense é calar o orgulho sem o perder, como já diria Artur da Távola.

Poderiam ser 95 ou 99% que fossem. Seriam em vão, pois sua existência, por origem, apoia-se nisto: em uma futilidade, em uma mera dissidência digna da escória.

Fossem milhões contra dezenas, meus amigos, sucumbiriam. Engoliriam, como o fizeram ontem, toda a soberba, e voltariam derrotados para a casa.

Ontem, cada um deles foi incrédulo por noventa minutos. Absolutamente atônitos. Enchiam o peito de ar para esboçar seus gritos, mas suspiravam em desistência logo depois. Fugia à parca capacidade mental deles olhar para baixo e ver algumas centenas agigantando-se como titãs. Filhos de Caicó, de Currais Novos, de Mossoró e do menor e mais inexpressivo município que fosse simplesmente incandesciam. Venciam idade, as dores nas pernas, a rouquidão, o frio e a chuva.

Cada tricolor ontem na Arena das Dunas ardia em chamas por dentro, aceso por uma camisa que – diferente das demais – não se põe sobre a pele: ela é o próprio ser. Pacífico e leal, como o branco, mas com inestimável esperança e vigor incessantes.

E quando Sobrenatural de Almeida olhou para Natal e viu como andavam seus planos, percebeu que estava tudo bem. Do alto, deleitava-se ao ver a Cidade de Sol bloqueada pela tempestade que convidara a comparecer.

Do alto de sua soberba, porém, não percebeu que a tempestade de nuvens deixou seu protagonismo. Não eram mais as gotas do céu para as quais todos olhavam. Ao capricho dos 30 minutos do segundo tempo, as nuvens, em súbito, aliviaram sua sangria.

Havia algo muito mais nobre lá embaixo: uma tempestade sumia e nascia outra dos olhos de um garoto de 19 anos. De um Richarlison combatente e que cujo destino deu-lhe o primeiro gol a 2000 km de onde ele mais esperava, mas nos braços de centenas de guerreiros tricolores nas arquibancadas.

Lágrimas genuínas. Uma reverberação instantânea aos olhos e corações de quem ali estava. Os ventos da tempestade mudavam de rumo. Era a vez de Natal, Caicó, Mossoró e Currais Novos chorarem por ver em seu berço a consolidação de tudo aquilo de mais belo o futebol pode gerar: a apoteose em poucos segundos inesperados, a aversão à lógica, a ansiedade e os gritos entalados de vitória ao fim.

Era a vez de alguém isolado em um quarto em São Luís chorar e comemorar como se lá estivesse, ao primeiro milissegundo em que viu, nas imagens de Natal, seu pai com 66 anos e seus amigos ensopados por três horas de chuva realizando um sonho.

A Arena das Dunas, meu caro Nelson, onde quer que esteja, viveu seu grande dia naquela tarde de Domingo.

Se daqui a duzentos anos a cidade ainda falará mordida em nostalgia sobre este Fla-Flu, não sei. Já serei imponderável nestes tempos.

Mas uma década e meia passará – e, quem sabe, em um estalo. O ano novamente será 2030. João chegará da escola, beijará a mãe com seus cabelos cacheados e virá ao colo de seu pai:

“Papai, a tia da escola pediu pra pesquisar uma coisa hoje”

“O que, meu filho?”

“De que são feitas as dunas que têm lá em Natal?”

“Ah, meu filho. Elas são de areia. Mas teve um dia, meu filho, um só dia em que elas não foram de areia: elas foram de pó-de-arroz.”

Saudações tricolores.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri

Imagem: eco

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