Do Alex Ferguson tricolor a Tite (por João Marcelo Garcez)

FBL-ENG-PR-MANUTD-FERGUSON-RETIRE-FILES

Ainda na minha coluna do mês passado neste Panorama Tricolor, falava da idolatria que nutria por Renato Gaúcho durante a infância, por ter sido ele, no triênio 1995-1997, praticamente um embaixador tricolor na alegria e na tristeza, em um período de emoções mistas para os tricolores, que foram do céu ao inferno de um ano para outro.

Por este motivo e por todos os outros que descrevi naquele texto (releia em http://www.panoramatricolor.com/category/colunas/garcez/), principalmente pela identificação de Renato com o Fluminense, sou sempre simpático à presença dele no clube.

Renato é uma espécie de Alex Ferguson das Laranjeiras, pois entre idas e vindas como treinador, interinamente ou como efetivo, diferentemente do que publica quase a totalidade da crônica esportiva, sir Portaluppi já dirigiu o Tricolor em sete ocasiões – 1996 (duas passagens), 2002-2003, 2003, 2007-2008, 2009 e 2014.

Esta última depois de se sagrar vice-campeão brasileiro com o Grêmio em 2013. Além do Rio Grande do Sul, Renato passou por centros como a Bahia e o Paraná, desfazendo um pouco a imagem de que só gostava de trabalhar no Rio de Janeiro. Mais comedido em suas declarações, RG começava a acumular bagagem e a amadurecer como treinador.

Em telefonema que recebi de Francisco Horta em meados deste mês, o ex-presidente tricolor, entre outros tantos assuntos, falou que Renato gosta de moldar seus times à sua feição de tempos de jogador – aguerrido, corajoso, destemido, partindo para dentro.

FHNão é, infelizmente, o que vem acontecendo nesta sua presente passagem. A série de vitórias – sete – e a goleada sobre o Flamengo – a única derrota do time rubro-negro neste Estadual –, se não empolgaram, ao menos chegaram a animar os tricolores, que passaram a acreditar, em que pese a fragilidade dos adversários daquela competição, que o ano de 2014 poderia ser bem diferente daquele que passou.

Mas logo o time voltaria a se tornar apático e sem imaginação, como na maioria dos jogos do último Brasileiro, ao optar Renato por jogar com três volantes, esquema que visivelmente não rodou, embora tivesse boa intenção com ele – proteger a defesa, alvo maior de críticas no Brasileirão.

A insistência do treinador com a formação (4-3-1-2) e o nível sofrível de atuações da equipe fizeram que com que os tricolores mais ressabiados já previssem o final trágico do Fluminense no Estadual, que se consumou com a eliminação para o Vasco, domingo, quando foi derrotado praticamente sem ameaçar o rival.

Nem é preciso ser necessariamente um estudioso do futebol para imaginar que a chance de um novo insucesso contra o Horizonte dia 10 é enorme, se não houver uma ampla reformulação no time e na maneira de (não) jogar – só com bolas levantadas na área, à procura de seu centroavante fixo, Fred.

Mesmo não coadunando com a filosofia de demissão de treinador a cada três ou quatro insucessos, desta vez, sou, em caráter excepcional, favorável à saída de Renato, a despeito de toda a minha simpatia por sua figura. E explico.

Com a eliminação no Estadual ainda na semifinal, o Fluminense ganhou três semanas de preparação até o início do Brasileirão, cuja edição de 2014 o Tricolor tem, por tudo o que envolveu o clube diante da opinião pública (e publicada) no Caso Lusa, obrigação moral de fazer um grande campeonato, preferencialmente, como resposta, pegando uma das vagas para a Libertadores.

Para isso, porém, o Flu precisa de um treinador ainda mais experiente, tarimbado, que não se deixará influenciar emocionalmente (e nem ao time) pelas pressões que o clube certamente haverá de sofrer – da imprensa e das arquibancadas. Precisa também, claro, de um profissional que explore melhor as peças do xadrez tricolor, dando-lhe padrão de jogo e competitividade.

Para preencher tais requisitos não vejo no mercado ninguém melhor do que o campeão mundial Tite, que em entrevista ao diário esportivo Lance, em dezembro, declarou que curtiria trabalhar no Rio de Janeiro, o que seria uma novidade na sua bem-sucedida carreira.

Técnico TiteTite, como Muricy Ramalho em 2010, que também chegou dias depois de outra desclassificação do Fluminense no Estadual (daquele vez para o Botafogo), teria tempo superior até ao de uma pré-temporada para arrumar a casa.

Naquele ano, na sua chegada, Muricy perdeu duas vezes para o Grêmio e foi eliminado da Copa do Brasil (oitavas de final). Mais à frente, porém, o Flu colheu os frutos do trabalho de seu treinador com a quebra do jejum de 25 anos sem ganhar um Brasileiro.

Por isso, tenho convicção de que, como naquele 2010, os tricolores não se importariam de, com uma possível troca de Renato por Tite, correr o risco de outra saída prematura na Copa do Brasil (ainda que esta, para o Horizonte, se ocorrer, virá a ser sim um monumental vexame) por uma grande campanha no Brasileiro, com o time brigando cabeça a cabeça pelo pentacampeonato nacional. Uma boa moeda de troca.

Que está nas mãos só da diretoria e, principalmente, de Celso Barros, maior empecilho para a mudança, por sua forte amizade com Renato.

Às vezes, embora nem sempre queiram, é preciso enxergar muito além do horizonte.

João Marcelo Garcez (joaogarcez@yahoo.com.br) é jornalista, publicitário e escritor. Autor de cinco livros, já trabalhou em empresas como TV Globo, Jornal dos Sports, Globoesporte.com e DM9DDB. Atualmente na Editora 5W, Garcez escreve mensalmente ao site Panorama Tricolor.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri @blogdoflu

Imagem: google

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

 caracteres