Descanse em paz, Maracanã (por Paulo-Roberto Andel)

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Você foi meu playground, parque de diversões, máquina de sonhos e fantasia desde a infância. Eu contava as horas durante a semana, sonhando que meu pai dissesse “Toma banho, vamos para o jogo”. E quando chegava na Praça da Bandeira me dava uma aflição: as pessoas caminhando com suas bandeiras, o trânsito engarrafado, o carnaval de toda semana. Às vezes, chegávamos antes de todo mundo, então lanchávamos e ficávamos sentados num dos bancos de praça que te cercavam.

Depois eu aprendi a ir sozinho e aí virou a festa: cada centavo era economizado para os ingressos, que eram acessíveis até para um garoto pobre como eu. Naqueles anos difíceis de 1981 e 1982, eu estava em todas. Depois foi mole: o Fluminense ficou fullgás, virou o charme do mundo.

Em 1990, eu chorei quando te vi destruído no gramado para o Rock in Rio, mas a vida continuava. Entre desastres, alegrias, sofrimentos e alívios, fomos felizes até 2005. Virei adulto aí dentro, chefe de família, comecei a ter as perdas, viver as desilusões inevitáveis. O meu Fluminense nasceu, morreu e renasceu muitas vezes, no tempo que um tricolor abraçava o outro em vez de brigar por patéticos engravatados… Ok, rugas e cabelos brancos à parte, eu fui e nós fomos felizes. Tivemos vida.

Quebra ali, muda lá, assassinaram a geral. “Coisa de pobre, desdentado, precisamos de um público diferenciado”. Ugh! Não deu certo, a turma ainda sobreviveu por mais cinco anos. Ainda fui feliz. Ok, eu e Catalano tiramos fotos do velho placar esquartejado. Paciência.

Cheiro de merda mesmo, só em 2010. Aquele negócio de quebrar tudo e fazer a maravilha de Aquarius nunca me convenceu. Ninguém sabia, mas era apenas mais o plano de enriquecimento ilícito de um velho rato de praia em Copacabana – o bairro que nunca dorme. O Fluminense vivia o mecenato corporativo, fez grandes times, ganhou campeonatos e a torcida passou bem pela Era Engenhão.

Depois de 2013, sejamos sinceros? Nunca mais. Uma decisão ali, um clássico acolá, mas a verdade definitiva é que estupraram a tua alma, esfaquearam o teu fígado, te dilaceravam. Tudo pela merda da ganância e do poder da caneta. Nós tricolores, numa única vez botamos 50 mil dos nossos, numa noite em que o time foi aplaudido mesmo derrotado. Já se foram quatro anos…

Perdeu o sentido. As velhas arquibancadas estão estupidamente mortas. Os sambas viraram marchinhas sem a graça carioca. Quem se abraçava virou hater, porque ter likes ou ser donatário das insossas cadeiras plásticas é muito mais importante do que tudo, tudo o que você foi um dia: um lugar de gente que se abraçava, que se pertencia por uma hora e meia – ou três – por causa de uma camisa tricolor, mesmo que ela fosse desbotada ou pirateada. Que abraços? Hoje somos todos selfies, frases feitas, tom professoral e uma babaquice de dar dó.

Agora cagaram tudo de vez: inventaram jaulas para que o apartheid seja definitivo. Certa vez escrevi um livro que, em sua apresentação, dizia do combate ao apartheid tricolor. Perdi, mas já dizia o imortal Darcy: é um orgulho estar do lado contrário dos que me venceram.

Às vezes vou na leste, geralmente quando o time mais precisa: na hora das vitórias, todo mundo vai – ano passado foi assim. Gosto de ficar isolado, às vezes sentado perto de algum torcedor de aparência humilde, cheiro de trem. Então volto a ser criança, a ter futuro e a perceber no amigo tricolor que me desconhece a imagem de um irmão. Tudo definitivamente ao contrário deste mar de bosta com finanças, empresários, torcedores de candidatos, panfleteiros de aluguel, anônimos metidos a subcelebridades, fanfarrões metidos a dirigentes, fanfarrões que pagam de patrão mas são funcionários e demais abestados. Alguém decide se você pode cantar, gritar, vaiar, peidar, respirar. É ridículo.

Eu só queria meu cachorro quente, meu copo de Coca-Cola cheio de espuma, meu olhar de criança sonhando a cada jogo, aquela nuvem de pó de arroz e um pouco de humanidade. Já que é impossivel, o que dizer? Descanse em paz, Maracanã. Te agradeço por aqueles anos incríveis entre 1975 e 2010.

Ainda não estou morto. Já, já, volto. O Fluminense vai precisar e as selfies não vão resolver. Agora, não venham me dizer que a imitação gourmet fajuta e flácida supera o original. Jaula é o caralho!

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João Carlos, Kleber e… Rinaldo?

Panorama Tricolor

@PanoramaTri @pauloandel

#JuntosPeloFlu

Imagem: rap

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