Deixem Enderson trabalhar! (por Thiago Muniz)

escudão do flu

Sempre que começa uma temporada, além das especulações de transferências de jogadores, quando os campeonatos entram em curso o que mais se corneta a cada fim de rodada é qual técnico foi demitido ou quando o será.

Isso é debate nas mesas de bar, café da manhã e claro, nas mesas redondas da “grande” mídia, que afinal de contas gosta de ver o circo pegar fogo. Virou uma cultura demitir um técnico a cada rodada, quase que cumprir uma meta. Todos se conformam com essa situação.

Pois eu digo o que é isso: uma cultura de bosta!

Todo ano é a mesma coisa: as demissões vão se sucedendo com o passar do Brasileirão e surgem as listas com os professores-sertanejos, uns fortes, aqueles que resistem no cargo. E quando o ranking aponta que um deles segue no comando desde o ano anterior, o fato vira motivo de brinde.

A desculpa é a mesma de sempre, ou melhor, o discurso é o usual: “funciona assim no futebol”, “é a cultura do futebol”, “precisa mudar o ambiente”… Até quando? Até quando teremos aguentar essa ladainha?

Não há dirigentes capazes e competentes o suficiente para peitar essa “cultura”? Ou a troca simples do técnico satisfaz o desejo irracional de conselheiros, torcedores e muitos jornalistas também pela carnificina?

A cultura de demissão após dois ou três resultados negativos produz um vazio enorme de ideias. Não conseguimos ter uma amostragem razoável de bons trabalhos para discutir verdadeiramente os caminhos do futebol local. Pouco sabemos da capacidade de reação de um desses profissionais aos períodos de dificuldades. Rotula-se de fracassada uma passagem de poucos meses, um adjetivo inapropriado para tempo tão exíguo.

O técnico de futebol não é mágico que resolve toda a situação caótica de um clube em duas ou três rodadas. Há alguns que viraram símbolos de “bombeiro” – aquele que passou a ser mais um motivador do que efetivamente um técnico de futebol.

Treinadores, dirigentes, jogadores, torcedores e parte da imprensa repetem, com frequência, o lugar comum de que a excessiva troca de treinadores faz parte da cultura esportiva, de que é assim que funciona e ponto final. É uma postura conformista e medíocre. Mais do que isso, acreditam que as vitórias, as derrotas e as atuações das equipes são sempre decorrentes das condutas dos treinadores.

Nenhum outro profissional recebe tanta pressão por resultados quanto um técnico de futebol. É por essas e outras que eles exigem uma rescisão gorda em caso de eventual demissão. E é uma situação ruim para os próprios clubes, pois normalmente não possuem caixa para bancar essa rescisão contratual, o que gera uma bola de neve financeira.

Por outro lado, há técnicos que reclamam que ficam pouco tempo em um clube, mas que também gostam da situação, que os mantêm supervalorizados, como se fossem os supertécnicos que vão resolver os problemas dos times.

Serei CONTRA se demitirem o Enderson. Assim como fui CONTRA demitirem o Cristóvão.

Tem algum técnico de ponta disponível no mercado? Demitir para contratar quem? Para trocar seis por meia dúzia?

Se não for para contratar um técnico experiente e vencedor, tem que manter o Enderson até o final do campeonato. Se o saldo for negativo, traz outro técnico para começar o trabalho na pré-temporada.

Trazer um treinador que não conhece o elenco, no meio do campeonato, será um tiro no pé.

Épreciso acabar com esta história retrógrada de que a culpa é somente do treinador, pois se trata de uma equipe de no mínimo 50 profissionais. Todos têm que assumir o seu papel do cuidador de chuteiras ao presidente do clube. Tem é que cobrar o time todo! Quando ganha, ganham todos, quando perde, perdem TODOS.

Por isso que o futebol brasileiro não vai para a frente. Outro hábito, que se perpetua e mediocriza nosso futebol, é o de criar conceitos, heróis e vilões, o de exaltar jogadores e equipes por um bom momento. Tudo muda em uma semana. Na ânsia de promover o espetáculo, de fazer bons negócios e de aumentar a audiência, perdem o senso crítico.

O time do Fluminense está entre os seis melhores do campeonato, mas tem suas falhas também, claro. Concordo que o Enderson não é o Guardiola, mas devagar com o andor. Seria o quarto técnico em um ano. Desse jeito não tem como nada dar certo mesmo.

Deixem o técnico trabalhar, oras…

Panorama Tricolor

@PanoramaTri

Imagem: pra

o fluminense que eu vivi tour 2015

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

 caracteres