Dia do Amigo Tricolor (por Paulo-Roberto Andel)

O primeiro era meu pai. Às vezes me puxava pela mão, noutras não. Eu me lembro que chegávamos cedo ao Maracanã, cedo demais, bem antes dos vendedores de laranja e de bandeiras de mão. Algo em torno de meio dia, a partida era às cinco da tarde. Em algumas situações apenas ficávamos sentados num banco de praça vendo a gente do Fluminense passar. Para uma criança de oito ou dez anos de idade, tudo era cinema novo: os velhos e moços do subúrbio, as crianças de todo lugar, os meninos pobres que enchiam seus olhos de lágrimas quando alguém lhe dava os ingressos – meu pai fez isso muitas vezes -, o moço do saboroso cachorro quente empurrando sua carroça, os humildes trabalhadores esquentando suas latas para venderem amendoim. E gente, gente, gente, geralmente de trem à Derby Club.

Dentro, havia o doce mistério das salas de torcida, preparando bandeiras e adereços, muito pó de arroz. Eram tensão, alegria e expectativas, coisa seria demais. As pessoas de idade geralmente levavam almofadas com o nosso escudo, porque em dias de calor a arquibancada era chapa quente. No campo, o time que invariavelmente jogava todo de branco, com um lindo uniforme que Miles Davis aprovaria, porque menos é mais. Diziam que era fraco. Wendell, Edinho, Rubens Galaxe, Pintinho, Claber, Mário, Robertinho, Zezé. Que fraqueza? Pesquisem, pois. Não copiemos as besteiras dos murais.

Desde 1974 de forma esparsa e a partir de 1978 com mais intensidade, virei um garoto de Maracanã. Meu pai era meu único amigo. Lá, tínhamos a ilusão de que éramos e continuaríamos a ser muito felizes, o que vai se tornando impossível à medida que você gaste um mísero minuto do dia pensando no próximo e suas agruras, diante de um mundo tão injusto. Vida que segue.

Aos poucos, fiz outros que me acompanharam muitas vezes e outros aí estão até hoje. Puxei o Luizinho e o Gota pela mão, debati muito futebol com o Luiz Manuel, os camaradas da escola também. O João Carlos era um touro e nos protegia. O caro Coruja. Ser adolescente nos anos 1980 era saber que o Fluminense disputaria todos os títulos. Os amigos de vista, os ídolos de arquibancada, os parceiros de ônibus que se reconheciam e, num segundo, a conversa era absolutamente tricolor. E se agora você pensa que o que eu disse é a antítese dos dias atuais, com o ódio espalhado por meia dúzia de patéticas subcelebridades de computador, é exatamente isso. O contrário absoluto.

Tenho feito muitos amigos por causa do Fluminense. O mesmo computador que dispara ódio também traz amor, fraternidade, proximidade. Com um deles, que ainda não pude ver de perto, até escrevi um livro. Os casais que se formam, os camaradas que se sociabilizam numa nova arquibancada e sempre sentam juntos, driblando a gourmetização e a gentrificação. Não há mais bancos de praça, vendedores de laranja e sequer Maracanã, entregue às vontades do empresariado, mas a atmosfera permanece. Hoje os amigos vão se abraçar na noite gélida e importante em Edson Passos. É o nosso time, rapaz, que pode ficar em boa posição no Brasileiro. Torçamos como nunca!

No Dia do Amigo, tudo o que eu queria era reencontrar o Fluminense que eu vivi. A impossibilidade é certa, mas novas trilhas podem ser abertas. A amizade é algo a ser construído a cada dia, a cada passo, e pode ser erguida muito além desse estúpido fundamentalismo pós-eleitoral estimulado por dois ou três pilantra$. Temos um hino que fala de amor, paz, emoção, harmonia. O caminho é outro. Lamartine Babo é muito mais importante do que qualquer “quem?”. É melhor trocarmos abraços do que frases de ódio. É racional.

Hoje é noite de vitória. Eu sou eternamente otimista. Depois de 40 anos nessa estrada, tenho lá meus motivos. Meus bons amigos estão inundados por três cores, até mesmo no cemitério e na inevitável saudade que corrói a alma. Feliz Dia do Amigo, pois. Aquele abraço.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri @pauloandel

Imagem: rap/curvelo

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