Coração Valente, sete anos depois (por Eric Costa)

O gol de Washington

washington 2008 sp

Era 21 de Maio. Parafraseando o grande Machado de Assis, “jamais me esquecerei do dia, nem do ano”. Até então, 2008 alternava entre grandes momentos e certas atuações duvidosas, que acabavam deixando um pé atrás quanto ao estelar time do Fluminense.

Eu, que tive, na infância, o contato com o período mais triste da história do Fluminense, via na Libertadores um sonho de criança. Inevitavelmente, pegava-me pensando em qual seria o próximo jogo, qual o ponto forte do próximo adversário etc. Naquele 21 de Maio, porém, a apreensão era diferente, entre picos de tensão e ansiedade. O desejo por ver a bola tão cedo possível vinha desde o jogo da ida, a partir do qual nós tivemos que escutar a falácia típica da imprensa esportiva. De sorrisos sarcásticos até frases claras, “jornalistas” enfatizavam o São Paulo como assegurado semifinalista. Projetavam o encontro dos paulistas o temido Boca Juniors. Mal sabiam que este seria outro a sucumbir perante a magia tricolor.

Como torcedor que morava distante do Rio, guardava em mim uma leve frustração de não estar no Maracanã naquela noite. Lá, seria quase mais um jogador em campo. Nelson Rodrigues certa vez nos disse que nossa torcida não se vale por mera expressão numérica, mas sim pela força de nosso sentimento. Fomos tão sublimes que naquele jogo superamos inclusive a profecia de Nelson: havia tricolores unidos, carregando seu estandarte de paixão amontoados pelos anéis do velho e verdadeiro Maracanã. Com a angústia pelo confronto de horas depois, conduzia minha rotina escolar durante aquele dia sem maiores complicações e com a morosidade típica do ensino médio. Vinha a tarde, mas carregada de nenhuma tipicidade: onde estava o sol típico do sertão do Rio Grande do Norte? As nuvens rugiam e quão mais cinzenta estava aquele entardecer, mais longe iam meus pensamentos. Contemplava a paisagem e vinham à mente as memórias recentes de nossa torcida, a mobilização em torno de nossa classificação e tudo que compunha a não menos que inesquecível atmosfera do “Agora é guerra”. E foi ali, então, que confesso ter feito algo que poucas vezes já havia acontecido na minha vida: “conversei” com Deus. Não, caro leitor, este não é um texto de convencimento ou debate se algo divino existe realmente ou não. Mas o fato é que ali, ainda mais atipicamente, não pedi nada individualmente: pedi por nós, por cada tricolor, estando ou não no Maracanã mais tarde. Não se tratava de um simples confronto. A ninguém mais do que nós cabia a vitória. Jamais vestimos nossa camisa mecanicamente. Há sempre um quê de nobreza em vestir estas três cores. O manto tricolor é parte de nós. É, no fim, mero detalhe que apenas deixa evidente tudo que significa ser tricolor, por natureza: da fidalguia característica, passando pela interminável esperança e terminando no eterno amor que cada um de nós carrega no peito por esse clube. Merecíamos a classificação e isso era visível nos olhos trêmulos com lágrimas dos tricolores ao falar que, mais tarde, mesmo geograficamente distante, seria uma voz mais a empurrar o time à vitória.

Aproximava-se o jogo. Eu e meu pai, com seus então de 59 anos, sentávamos lado a lado. Por mais que tantas glórias do amado tricolor ele já tivesse presenciado, sentia que a ansiedade também o tomava. Parecíamos saudavelmente disputar quem era o mais inquieto nos primeiros minutos de jogo. Entre olhos atentos, súplicas e os primeiros xingamentos ao juiz, assistimos Cícero subir como pouco antes visto, resvalar na bola e achar Washington. O Coração Valente, ali, libertava-se do seu jejum. Os deuses do futebol, porém, haviam reservado seu grande ato para depois. Perdíamos chances no ataque, mas nos defendíamos bem. O intervalo mostrou-se uma eternidade de quinze minutos. O jogo vinha morno e o time menos incisivo. Quase um cenário perfeito para um time como o São Paulo. O gol de Adriano, com jogada desenvolvida na falha marcação de Ygor parecia atestar o que seria o fim da campanha. Baixei a cabeça e a angústia agora se tornara medo. Olhei meu pai ao lado e via a expressão de “acabou” também compartilhada por ele. Doíam-me muito os poucos segundos em que achei ter sido nossa mobilização, nossa esperança toda em vão. Mas até mesmo meu pai com toda sua experiência tivesse ainda algo a aprender em definitivo naquela noite. Eu, com meus 16 anos, deveria, ali, ter o contato inesquecível com a característica mais intrínseca do Fluminense: de ir, em suas vitórias, “da extrema falta de perspectiva, do máximo de sofrimento ao êxtase, ao épico, ao apoteótico”, como nos diria Mauro Jácome. Foi quando o rosto já molhado por algumas lágrimas de tristeza pela iminente desclassificação, pôde levantar-se em súbito e ver a bola lançada do pequeno Conca ao pé esquerdo de Dodô. Se errou o chute ou não, a bola entre as pernas de Rogério Ceni e tocando a eterna rede do Maracanã trouxe o grito de volta a garganta e a esperança a cada gesto nosso dali pra frente. Dos quase trinta aos acréscimos, chutávamos junto com nossos atacantes e defendíamos com Fernando Henrique e Thiago Silva. A bola por cima do gol, com Maurício, e o chute de Conca, a atingir a toalha de Rogério Ceni ao seu canto esquerdo, denotavam que não havia tática de Muricy capaz de suportar a pressão tricolor e os setenta mil gritando incessantemente.

Aos quarenta e cinco, bola de Alan na área. Maurício, trêmulo, consegue o escanteio. Mal sabíamos que, naquele momento, xingando Maurício por não ter chutado a gol, estávamos a instantes daquele que talvez fosse o ponto de alto da vida de muitos tricolores no futebol. Diante daquela TV carinhosamente comprada com todo carinho por meu pai na alegria de podermos ver com todos os detalhes a Libertadores, olhava para o lado e o via com os olhos fixos, talvez mais longe do que deveriam pela tensão existente. Era, talvez, ele sentindo mais do qualquer outro os segundos seguintes. E, ao olhar para Thiago Neves na cobrança do escanteio, me atentei rapidamente a um detalhe da imagem: uma criança, ao fundo, na “beirada” das cadeiras, batia nas grades com algum objeto repetidamente. Gesto tão mecânico e nada nobre, mas representativo da ansiedade ao quase pressentimento que o gol sairia. Era ali a eternidade. Os segundos seguintes premiariam aquela criança e tantos outros, das mais diversas idades. Premiaria mais do que tricolores, mas também aqueles admiradores do futebol e de todas as emoções que ele pode gerar. A bola viajou. Um guerreiro – cuja alcunha já possuía com justiça bem antes do que o próprio Fluminense – se espremeu entre os beques e cabeceou com maestria e milimétrica precisão. Nenhum centímetro a mais daquilo que era necessário para sair do alcance de Ceni. A bola entrou, tão caprichosamente colocada que parecia ser conduzida ao sopro de João de Deus. Ali, explodia-se toda a tensão em um estrondo de felicidade como poucas vezes o Maracanã testemunhara. Entrava ali Washington e aquele dia na história do Fluminense. Foi quando liberto do meu pranto de ansiedade e imerso nas lágrimas de alegria, ajoelhado em frente à TV, olho meu pai. A figura séria e disciplinadora foi-se por instantes. Chorava ele também. Talvez mais do que eu. Mesmo com tantas glórias já assistidas por ele em sua vida, a espontaneidade daquele momento será rara de se ver novamente. Sua felicidade ali talvez estivesse multiplicada por estarmos nós juntos vivendo um momento tão marcante na história do clube. Não era só mais um passo na Libertadores 2008: era uma apoteose, um êxtase produzido a partir da extrema falta de perspectiva que sentíamos minutos atrás. Era uma vitória cardíaca e o golpe com requintes de crueldade na imprensa cuja falácia sempre nos denegria. Não hesito em dizer: nunca tive tamanha alegria como naquele momento, regado a lágrimas de felicidade e desabafo.

Talvez ali, naquele dia, passei, e permita-me o leitor a confidenciar algo tão particular, a suspeitar que não muito distante de Deus, talvez o importunando a cada jogo nosso, estejam Nelson e Gravatinha insistindo para que o imponderável sempre atue a nosso favor. Eu sei e você não precisa me lembrar como “porém” que não vencemos aquela Libertadores. Eu prefiro, caro leitor, novamente recorrer às palavras rodrigueanas. Por que não acreditar que a “decepção” que fora a final é, na verdade, uma parte do sofrimento que sempre antecede uma grande conquista? O dia em que a América estará oficialmente sob os pés tricolores há de chegar. E, nesse instante, lembrarei de cada lágrima daquele 21 de Maio, em choros de criança meu e de meu pai. Não esquecerei do Boca desnorteado no Maracanã, tal qual não escapará da memória minha dor de 2 de julho. Tudo isso, eu sei, comporá a imensidão da alegria de quando talvez estivermos no topo do mundo.

O Fluminense por tudo o que já me proporcionou me traz a plena certeza de ele ser um inesgotável amigo. Ele está lá sempre a te surpreender com alegrias extremas nos momentos mais tristes de nossas vidas particulares. Pode, por sentimental que é desde seu escudo, magoar-se e esperando, com seu sorriso, nosso apoio e orgulho de ser tricolor também após as tristes derrotas. E que sempre está a escutar cada uma de nós. Seja com seu grito, xingamento ou canto, o Fluminense e nosso amor por ele só há de engrandecer. Indefinidamente.

Saudações tricolores.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri @ericmcosta

Imagem: uol/guis saint-martin

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