Conversa entre amigos (por Paulo-Roberto Andel)

bla bla

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Dia desses, depois da vitória (sofridíssima) em cima do Resende, fiz uma das minhas breves – e raras – intervenções no Twitter. Lá estavam meus amigos Alexandre, Alan e Zalu.

Comentava-se sobre o difícil 1 x 0 em Volta Redonda, a superação de adversidades. Apesar dos pesares, era o Fluminense de volta ao G4 em cima da hora. Melhor ainda: tirando o Flamengo do grupo de times temporariamente classificados. Para comemorar, não?

Em certo momento, uma fala foi definitiva:

“Era para os tricolores estarem rindo do G4, da derrota deles e da camisa papagaio. Mas alguns preferem a politicagem.”

Explica-se: depois de uma partida complicada, vindo de dois resultados desfavoráveis, é claro que o Fluminense tinha a lâmina da guilhotina no encalço do pescoço. Não jogou bem, o time enfraqueceu em relação a outras temporadas, há diversos problemas no clube, nada é tão simples. Por isso mesmo, vencer era sim motivo para se festejar. O futebol é para isso: brincar, torcer, comemorar, zombar.

Em nenhum momento demonstrar felicidade pela vitória significou (ou poderia significar) alienação diante dos problemas do time e do clube – bem denunciados em vários casos, tiro n’água em alguns -, mas sim o alívio e a essência em torcer.

Assim como a alienação diante das obviedades é uma chatice para mentes mais sofisticadas, o excesso de rigidez crítica em momentos inconvenientes também o é. Uma coisa é ser combativo, fundamental aliás – o clube anda precisando e muito. A outra é ser mala.

mala caramelo

Desde quando alguém primará pela lógica em torcer contra o próprio time do coração, pela simples vitória pessoal das próprias teses? Algo como “Está vendo? Eu disse que era uma porcaria! Vai cair este ano”. Torcer para o Fluminense perder e satisfazer a vaidade pessoal? Patético.

Críticas a Peter, a Mário, ao Conselho, ao ex-mecenas e sua tropa de choque, aos movimentos, às TOs, ao time, ao treinador, ao quinto dos infernos, tudo cabe dentro de preceitos básicos de respeito e civilidade. Torcer contra o próprio time expõe o interlocutor ao mais ostensivo ridículo e ao total desrespeito.

Bem mais legal é outro caminho, eu acho.

“Futebol é alegria e diversão. E zoar o flamenguista na segunda feira.”

“Já gritei muito Itaberá é seleção, me divertindo pacas, só pela picardia.”

“Hehehe, jamais teríamos um Itaberá mito atualmente.”

 “Sorria, sorria, sorria pra chuchu.”

No final uma constatação inevitável:

“Tenho 40 anos e, graças a Deus, vivi a época do Jornal dos Sports. Redes sociais estão insuportáveis.”

A obsessão pelo monopólio da razão, a intolerância e a incapacidade de se entender que discordar não é propriamente ofender são, sem dúvidas, verdadeiras pragas ao se falar de futebol hoje em dia. Tanta babaquice que talvez nem os líderes mais aguerridos da oposição e da situação aguentem.

Naturalmente, com a modernidade, a internet é um dos principais veículos para tentar trazer de volta as velhas mesas de bar onde os camaradas, entre mil chopes, gritavam feito loucos, brigavam de faca e finalmente se abraçavam, sem preconceitos pueris do tipo “mauricinho x vagabundo”.

E agora? Um abraço? Nenhum.

Os gloriosos botequins são insuperáveis. A geral, os gols do Fantástico, a mesa da TVE com reprise do clássico do Maraca a seguir.

Sem querer ser chato com os mais jovens, comparar é covardia.

Parte do pessoal precisa ter um mínimo de bom humor. É o Fluminense em campo, ora.

Vencer é bom.

Não é o caso de delírios hiperbólicos, enxergando supercraques num time em formação que ainda é dúvida para a frente. Mas a negatividade permanente não acrescenta absolutamente nada. Tão inútil quanto criticar sem propor ou fingir competência em deficiências óbvias.

A infeliz cruzada da vociferação contra a empáfia, levando somente à desconstrução.

Pelo menos aí estão o Alexandre, o Alan e o Zalu na condição de salva-vidas do futebol na minha internet. Aos camaradas, um abraço de fé. Outros também.

Ainda vale a pena torcer, mesmo que o chato prepotente na cadeira ao lado mereça auspiciosos cascudos, apesar de torcer para o mesmo time.

O chato que sabe tudo, que quer ensinar a torcer (sem levar em conta quem já faz isso há décadas…), que é mais tricolor do que todo mundo (essa medida é de tirar a paciência de qualquer um), que sabe a resolução de todos os problemas em campo, na arquibancada, no clube, no Congresso Nacional, na sociedade civil, na cura do câncer e que, por tudo isso, acaba falando sozinho.

Pato novo não mergulha em lagoa funda.

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Pausa para uma breve reunião de trabalho e fraternidade com o Garcez na terça-feira à noite, as pessoas de olhos arregalados à espera do Comendador e do Big Brother, resolvemos ser modestos na Parmê. Nada de rodízio, apenas uma pizza gigante.

Adentrando o recinto, lá está o Gabriel jantando com a namorada.

Depois de abraços fraternos na entrada e na saída, a simpatia que os tricolores exerciam ostensivamente entre si nos tempos de outrora.

Talvez você não saiba, mas muito do que foi feito para agregar a torcida do Fluminense na internet tem a participação do Gabriel, ao lado do Serginho, Gustavo, Beto e tantos outros.

Há os que se alimentam do ódio, há os que fazem da vida um exercício samaritano. O Gabriel está no segundo grupo.

O Fluminense? Presente, na cumplicidade dos amigos, nas conversas reservadas e nos projetos de trabalho. Nos gols de antigamente, nas antigas redações, nas lembranças de João Saldanha com suas tiradas fantásticas.

Rimos novamente do velório na geral do Maracanã e da greve da torcida. Digamos que em 1982. Tem gente de lá precisando ser ouvida.

Envelhecer é chato por coisas assim: você olha para trás e percebe que havia certa leveza, certo espírito livre para amizades e companheirismo em torno do time de futebol preferido, o que quase desapareceu.

Outro Flu, outra torcida, outras palavras.

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Na hora de cobrar, protestar e combater problemas do time, do clube e da diretoria, tudo que esteja dentro da lei é bem vindo e necessário.

Esssencial. Respira-se o Flu.

Faz sentido.

O Tricolor não pode ser capitania hereditária de ninguém.

Mas, na hora do jogo e depois da vitória, uma noite de modestíssima comemoração não custa nada, senão perde o sentido.

Relaxar e gozar não faz mal a ninguém.

No dia seguinte a luta continua. Mais amor e menos ódio. Ser adversário não é ser inimigo, ao menos para os que se comunicam bem.

Ou para os que sabem ler e escrever sem farsas, o que por si só já reduz o espaço amostral.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri @pauloandel

Imagem: google

#SejasóciodoFlu

capas o espirito da copa + cartas do tetra 02 2015

2 Comments

  1. Andel, aqui em Natal (RN) sempre que os tricolores se cruzam nas ruas nos cumprimentamos. Não nos conhecemos mas literalmente vestimos às mesmas camisas. Minha esposa e meus filhos sabem que quando cruzamos com outro tricolor vem a saudação: Saudações Tricolores.

  2. Bem lembrados o JS, os Gols do Fantástico e a reprise da TVE. Várias vezes tentei não saber o resultado do jogo das 5h para assistir na TVE “ao vivo”.

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