Conservando a moral III (por Luiz Alberto Couceiro)

(Final, mas não conclusão)

O que é uma novidade? Dirão alguns o óbvio, uma coisa nova, que ainda não ocorreu. Mas, ainda dentro da obviedade nada burra, não rodrigueana, espero, nada ululante, para se saber que há algo novo no ar deve-se conhecer o que é considerado como antigo na atmosfera. Pode-se atribuir novidade também a algum fato, algum comportamento, alguma ação em outro cenário. Mas, por que tantas divagações? Não é para fazer um tratado meia-boca de filosofia de botequim. Nada disso. É para falar de um incômodo, mesmo que ele não seja igual ao seu, caro leitor.

No Brasil, contratações de final e início de ano são tidas como novidade. Ora, contratar em si não é novidade, assim como dispensar jogadores. Novidade é quem se contrata e se fosse trocado o nome “dispensado” para “demitido” para um jogador “saído” de algum clube.  Quem se contrata, muitas vezes, também não é uma boa nova. Pode ate ser uma péssima nova. Têm-se muitas presumidas novidades como uma possibilidade, imaginada, uma garantia, talvez uma aposta, de se encher páginas de jornal e não diminuir o número de vendas de exemplares. É só uma hipótese, talvez ruim, mas ao menos é alguma coisa. Temos nossas possibilidades e necessidades emocionais para acreditar nisso ou naquilo, querer isso ou aquilo. Não é, necessariamente, uma notícia que dará conta disso, mas pode ser que alimente nossas perspectivas. Mas são indícios de desejos, não os desejos em si. Elas amontoam significados e confundem o que de fato queremos. Contudo, querer não é sinônimo de coisa boa, de acontecimento bacana, ou de que na vida social esse verbo possa ser vivido da forma necessária. Da maneira pensava, idealizada. As redes de relações são complexas o bastante para mostrar-nos o quanto cotidianamente desejos e campos de possibilidades para suas realizações entram em conflito. Cabe a nós um intenso trabalho de negociação com a realidade, ou realidades que vivemos.

Na velocidade que isso ocorre, não há a menor condição de contratos de trabalho serem elaborados, negociações densas desenroladas e alternativas de mão-de-obra especializada buscadas. Quem trabalhada sabe que as coisas, até mesmo no confuso e obscuro mundo da bola, não ocorrem bem assim nas relações entre patrões e empregados, entre prestadores de serviço e clientes. No futebol, busca-se sempre algo especializado nisso ou naquilo, atendendo a demandas encomendadas pelos técnicos, pelos clubes. Da mesma forma que há uma espécie de ditadura da felicidade suprema, tema que domina com as redes sociais, tomando por estraga-prazeres as pessoas que criticam algo de maneira mais ácida, mesmo que de forma respeitosa, há uma ditadura da novidade. Contudo, ela não existe em si mesma, mas sim nos fornece uma pista de alguma necessidade que se vê em diversas manifestações. Há a necessidade de algo que ainda se quer refletiu-se do que de fato se trata. As temporalidades não são fantoches dos desejos, no mundo real, mas sim nas nossas subjetividades.

O que observo é que alguns times vêm, dentre eles o Fluminense, fazendo diferente, estragando o prazer dos viciados em supostas novidades: contratos mais longos, manutenção da base de elencos, melhoria das condições materiais de trabalho, continuidade de perfil de técnicos e garantia de meses de planejamento, permanência de patrocínio forte, enxugamento da filha salarial, contratações pontuais e a mescla de promessas das divisões de base com jogadores mais experimentados, sem lhes pôr pianos nos ombros. Isso, sim, é novidade! Tendo sucesso ou não nesse empreendimento, sabe-se onde está certo e onde está errado no caminho trilhado. Títulos são consequências disso tudo. Trata-se de uma maneira de organizar a vida de um time de futebol. Não é certo ou errado, mas tão-somente uma forma e nada mais.  Não sair montando times quase do zero, com honras e pompas, entrevistas coletivas, pessoas aqui e acolá dizendo bravatas para manchetes da imprensa especializada. Para essa, percebo que é melhor um clube contratar quem quer que seja porque se der certo ou não valerá notícia, mesmo que sejam na base de deboches e trocadilhos manjados.

Por que não se valoriza a atitude de um clube como o nosso? Alguém perde dinheiro com isso? Alguém ganha dinheiro com as contratações e tem influência no que se publica sobre alguém que talvez venha a ser contratado por esse ou aquele clube? Quer dizer que o clube que não segue a conduta, a prescrição moral, de fazer o certo, de montar um time como se estivesse jogando Fifa Soccer, está fora das grandes manchetes? Não há espaço para esse tipo de novidade da qual o Flu, mas não somente ele, vem sendo adepto. Mesmo quando o clube contrata alguém de maior peso, seus dirigentes agem sem boataria, negando quaisquer informações que não sejam oficiais. O que interessa é contratar direito, em termos administrativos, e não falar sobre o processo de contratação para que ele não dê em nada.

Ah! Claro! Isso não é uma conduta certa, é errada, é moralmente condenável pelos caciques da novidade. Isso não deixa ninguém angustiado sobre se é verdade ou mentira, se se trata de uma notícia “cavada” ou “algo sério e de fonte confiável”. O bom, pelo visto, é deixar torcidas angustiadas, e não satisfeitas com trabalhos mantidos, torcidas essas de times que estejam na pior – de preferência. Elas é que vão comprar jornais, e não as dos times campeões, já praticamente montados. Isso pega mal, não é moralmente aceito, não traz felicidade. Tranquilidade não cai bem num mundo de angústias, para comprar, fazer as coisas girarem, mercadorias afetivas que mostram o quanto é interessante para certos ramos empresariais alimentar a insatisfação de diversos indivíduos. Quanto mais insatisfeito, mais angustiado, e mais mudanças eles quererão. Acontece que as mudanças não ocorrem com passes de mágica ou com toques em controles de videogames. Não ocorrem elas sem reflexões e avaliações de sentimentos, incômodos, prazeres e possibilidades concretas de mudança, caminhos a serem seguidos, autoconhecimento. A angústia é pra ser vivida, porque simboliza algo, e não para ser o motor da gastança que durará poucos minutos de satisfação material. Mas penso que essas das quais eu falo não vendem notícia, não são novidade. Assim, o Flu não é uma novidade, mas sim “um museu de grandes novidades”, como diria Cazuza. Na moral, caro leitor, qual dos dois tipos de novidade no futebol você prefere?

Luiz Alberto Couceiro

Panorama Tricolor

@PanoramaTri

Contato: Vitor Franklin

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