Bastidores (por Rafael Rigaud)

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Amigos, neste fim de semana iniciou-se mais um Brasileirão, campeonato este em que defenderemos nosso título. Vencemos o Atlético-PR nessa primeira rodada, mas não, não vai ser sobre esse jogo em específico que falarei (deixo esta tarefa para o nosso amigo Paulo-Roberto Andel, que certamente o fará com o brilhantismo e a lucidez que eu jamais conseguiria). Quero falar sobre o momento que estamos vivendo e não pontualmente sobre nosso primeiro confronto no brasileirão do nosso penta. Dentro de semanas, receberemos em nosso país a Copa das Confederações e a canarinho já foi escalada tendo três tricolores em seu grupo sendo que, possivelmente, teremos dois deles entre o onze de Scolari (Fred e Jean). Por ser uma ‘avant-première’ da Copa do Mundo de 2014 e ter a nata da nata do futebol mundial (ao menos na teoria, já que trata-se de seleções campeãs em seus continentes), natural que haja um período de treinamento por parte da nossa seleção. O porém é que, para tal, times brasileiros que têm compromissos pelo Brasileirão deixarão de contar com seus preciosos craques e isso acontecerá conosco.

Nós, de Alvaro Chaves, deixaremos de contar com três jogadores essenciais durante algumas rodadas e isso certamente pode nos prejudicar. Diante de situação semelhante, outros times brasileiros ao se sentirem prejudicados conseguiram postergar os jogos em que não contariam com seus craques, adiando os mesmos para, depois – o Santos de Neymar (agora negociado), Ganso etc. perdeu também jogadores e não teve qualquer receio de solicitar (no que foi prontamente atendido); logo, o precedente estaria aberto caso o Tricolor quisesse proceder da mesma maneira, mas já foi dado o recado de que, no Laranjal, esse expediente não vai ser utilizado. Ao saber da nossa tradição de fidalguia (lembrando que fidalguia significa “nobreza de caráter”, não tendo, portanto, nenhuma conotação sócio-economica), não tive como não relacionar esse ato (ou melhor, esse “não-ato”) à essa nossa tradição. Porém, ao mesmo tempo que tive essa reflexão,não tive como não pensar também que estaríamos,em nome de um comportamento diferenciado, deixando passar não apenas uma chance de ter nossos craques a serviço do pavilhão das três cores que traduzem tradição, mas de fazer valer os nossos interesses dentro dos bastidores do futebol.

Na realidade, tenho pra mim que isto (termos nossos craques jogando essas rodadas mais pra frente, em outras datas) seria não o problema em si, mas o sintoma dele: temos sistematicamente deixado passar chances de nos fazermos representar no cenário da “política do futebol” de forma mais incisiva. Isso já aconteceu antes e já sofremos consequências. Será que esse Fluminense que vence usando a fidalguia pode se fazer representar de maneira adequada se continuar tendo essa postura? Os bastidores do futebol nacional fariam Hobbes corar de vergonha, é o Estado de Natureza levado a enésima potência, um cada um por si medonho e capacidade de associação zero (só a base de pragmatismo para fins escusos). Desconfio de que, dentro desse ambiente, a nossa fidalguia talvez possa vir a ser interpretada como fraqueza, incapacidade de defesa dos seus interesses, e isso certamente nos prejudicaria na hora de falar com os outros olhando no olho, de igual pra igual e fazer valer nosso interesse (arrisco dizer que,por causa dessa tal ‘fidalguia’ tão conhecida por nós, é que a adidas não tem nos tratado da maneira que deveria, se a gente não se posiciona como deveria,como pode esperar ser tratado como se deve?).

Não falo que devêssemos, como contrapartida, abandonar princípios e escrúpulos e partir pra cima dos outros como um rolo-compressor em busca dos nossos interesses, nada disso, o que digo é que é em “pequenos grandes” gestos como esses é que se constrói perante a si e aos outros uma imagem de respeitabilidade,não se trata de entrar de carrinho nos outros, e sim de se impor. Neste caso dos jogadores que nos desfalcarão, a CBF já abriu o precedente ao adiar jogos do Santos em situação idêntica,seria tão difícil assim pleitear o mesmo ou pro Santos é menos difícil que pra nós?

O ato de não exercer o direito de reclamar adiamento de partidas como já foi feito antes pode ser pra nós um gesto de fidalguia, um “segue o jogo, eu me viro do meu jeito”, mas para os demais será que é isso também,ou um “ah, o Fluminense não vai reclamar de novo, também, nunca reclama, estranho vai ser quando reclamarem, bando de trouxas”. O status do Flu é feito pelo que somos, pela história que temos e pelo que fazemos dentro do mundo do futebol,dentro das quatro linhas e fora também, lembrando que hoje o futebol se ganha TANTO DENTRO quanto FORA delas, não apenas com estrutura (CT, estádio, contas em dia, divisão de base, renda de venda de produtos e de associados), mas também com a capacidade de se fazer política nos bastidores.

E nisso, infelizmente, acho que temos pecado.

Rafael Rigaud

Panorama Tricolor

@PanoramaTri

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