Um bilhetinho no La Mole (por Alva Benigno)

alva japonês tricolor

Acabrunhado ao chegar no clube, Chiquinho olhava para um lado e para o outro. Sábado morno de sol, dia de campanha política, ele é situação, dissidência e oposição ao mesmo tempo, dependendo do interlocutor. Os grupos lá estavam em suas práticas tradicionais e ele precisava evitar contatos públicos comprometedores.

Entrou feito um furacão, não deu bom dia aos funcionários da portaria (para ele, criadagem), foi direto ao bar do tênis, cumprimentou conhecidos e logo foi para uma rápida inspeção na sauna, no estilo sargentão da Xuxa. Então pensou: “Aqui tênis se joga com P”. Riu sozinho. É um depravado. Sem nenhum bofe atraente por perto, desceu em direção ao campo, na esperança de ver algum craque tricolor sem camisa ou, quem sabe, um menino de Xerém com muito futuro.

Nas sociais, encontrou seu amigo Charles de Lausanne. Sentaram-se para ver o treino e, claro, fofocar. Charly tinha visto a movimentação na sede, pois havia chegado mais cedo:

– Cumprimentei hoje o adevogado Happybath, mona. Ele tem uma mão quente, nossa! Chegou cedo com seus bofinhos. Ah, mas ele se acha muito, crente que sabe do lance…

– Se ele não me conseguir dois meninos para eu fazer o caixa ano que vem, o que é dele tá guardado: dossiê do vestiário.

– Para com isso, Chica! Ah, mona, deixa de ser ridícula!

– Ridículo é você que paga pau pra anãozinho barbado.

– Morre de inveja, venenosa!

A tia velha ajeitou a cabeleira acaju para o lado, pensou alto e disse “Na hora certa tudo vai se encaixar gostoso”.

Ficaram cochichando quando veio a Confraria do Abadá pedindo voto nas arquibancadas, cerca de dez rapazes. Charles sorriu timidamente, Chiquinho falou alto “Estou com vocês onde vocês estiverem. Contem comigo”. Faltou apenas o complemento da frase: “Desde que vocês vençam e eu esteja no Conselho; senão, quero mais é que vocês se fodam”. Pouco interesseiro, não acha? Falso como sempre, sorriu e ficou de ir ao Bar dos Guerreiros maia tarde. Charles disse:

– Então vamos no BG depois, Chico?

– BG é minha rola, seu frescão. Desde quando eu vou a Baixo Gay? Os meus bomances são pribados e bespeitosos!

– Mona burra, é Bar dos Guerreiros!

Numa raríssima situação de congelamento, Chiquinho chamou Charles para almoçar no La Mole do Edifício Argentina. Pegaram um táxi rumo ao tradicional restaurante. Em minutos chegaram ao recinto. Pediram couvert, lasanha e vinho.

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Quando começam a conversar, eis que um tapinha nas costas dos dois dá um susto:

– Ai, Filhão, a essa hora? Senta, mas nao começa com aquelas viadagens de Twitter não. Hoje não tem Fluminense na pauta.

– Francismara, como você é mala. Eu vi vocês da rua, vim dar o abraço de colega e aproveitar para almoçar.

– Deixou o Abadá de lado?

– Não. Eles é que me deixaram. Ficaram no clube. Agora deram pra me chamar de “Chama Gol” da eleição, fiquei puto e vim embora. Hoje tou bege!

– Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk. É o Clemer da política?

– Não, eu sou o Eduardo Cunha. Espere e verá.

– Então você é flamenguista, seu merda! Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk.

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Começam a tricotar amenidades, até que o garçom traz os pratos. Um homem alto, forte, de braços nodosos, afrodescendente, bem apessoado. Charles e Filhão, bichas mais recatadas, apenas observaram. Zanzi, experiente, mandou na lata:

– Muito obrigado, garçom. Qual é o seu nome? Só falta você me dizer que é Fluminense.

– Obrigado, senhor. Meu nome é Alcebíades. Sou tricolor de coração.

– Nossa, que pompa, nome da antiga, porte de hoje, Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk. Volte depois que temos outros pedidos a te fazer.

– Obrigado, senhor. Ao seu dispor.

Os três riram e é claro que o garçom percebeu que eram três bichas nobres. Ele foi na direção da cozinha mas, quando passava perto da porta, alguém subitamente entrou no restaurante, entregou algo a Alcebíades, saiu velozmente e este voltou à mesa do Trio Los Angeles. Entregou o recebido a Zanzibar:

– Senhor, pediram-me para deixar aqui.

– Ok.

Assustado, Zanzibar abriu o envelopinho e nele havia um pequeno bilhete com os dizeres “Eu sei o que vocês fizeram na gestão passada”. Alcebíades já tinha saído.

Pálido, o escroque acaju dobrou o papel rapidamente sem que ninguém visse. Enquanto Charles ficou mudo, Filhão perguntou:

– Que é isso, Zanzi? Estão pedindo minha cabeça?

Uma resposta enigmática:

– Não, não, ainda não. Mas é melhor a gente tomar ainda mais cuidado. É dando que se recebe, filhão. Pense nisso. Acho que fomos, bom, ameaçados.

– MEODEUS!

Charles só espiava a reação de nossos Batman e Robin tricolores. Filhão ficou com cara de reprovado em psicotécnico todo cagado no banheiro, sem papel higiênico disponível – ou de retardado num selfie de estádio. Zanzi, calhorda de sempre, estava tenso demais embora nada dissesse.

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Alcebíades voltou à mesa, olhou bem para a tia velha e começou a cantarolar baixinho uma gravação de Maria Alcina: “Não para, não para, não para não, até o chão – elas estão descontroladas!”. A música era a sentença.

Charles disparatou: “Quem manda a gente vir no La Mole? O certo era ir no Cá Dura”.

Ainda tensos, conseguiram gargalhar da idiotice.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri

Imagem: google

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