A Portela, o Fluminense e o freguês (por Marcus Vinicius Caldeira)

 

I

Nasci no ano de 1970. Sim, não tenho problema com a idade. Me sinto jovial. E tenho certeza que a vida não se encerra com a morte do nosso corpo material. Assim nos ensina o espiritismo. Portanto…

Dito isto, nasci no ano em que pela última vez a Portela foi campeã sozinha. O enredo era “Lendas e Mistérios da Amazônia”, e o samba de Jobolô e Catone para mim é o mais belo da Azul e Branco de Madureira e Oswaldo Cruz.

Em verdade, eu deveria ser Salgueiro. Vivi minha vida toda na Tijuca. Não tenho nenhuma relação com Madureira. Mas, quando eu era um menino de 10 anos me encantei com o desfile “Hoje tem Marmelada”. Nunca mais meu coração deixou de ser Portela.

Fluminense, sempre fui desde que eu nasci. E quando eu nasci, o Fluminense ganhou seu primeiro titulo nacional. Coincidência ou não, nasci no ano em que Portela e Fluminense foram campeões e sou portelense e tricolor.

II

Em 1984, a Portela ganharia seu último título, dividindo o mesmo com a Mangueira na estreia do Sambódromo de Darcy Ribeiro, Oscar Niemeyer e Leonel Brizola. Sambódromo este que foi sabotado pela Rede Globo de Televisão. Não teve jeito. Brizola bancou a obra e Oscar Niemeyer e o seu calculista, o grande tricolor José Carlos Sussekind, botaram de pé a passarela do samba em tempo inimaginável.

Desde então, um jejum, uma secura de títulos na Portela. Em 1995 bateu na trave. Ano passado, também.

Mas, esse ano, não teve jeito. Com um desfile impecável sobre a batuta de Paulo Barros, bateria de Nilo Sérgio e com sambão de Samir Trindade e cia, pude pela primeira vez comemorar o título da minha escola de coração que mesmo ficando 33 anos sem ganhar na avenida ainda é maior vencedora do carnaval carioca com 22 títulos.

III

Há uns quatro anos atrás, fui na  Portela. Antes de entrar na quadra conversei com dois amigos militantes da escola, Rogério Rodrigues e Paulo Renato Vaz (esse, grande tricolor). Lamuriei o fato de mesmo a escola ter se livrado de Carlinhos Maracanã, ainda nos frustrávamos com o comando do presidente de então Nilo Figueiredo.

Os dois me confidenciaram: “espere, haverá uma revolução na Portela”.

E houve. Eles participavam de um movimento chamado “Portela de Verdade”, que chegou ao comando da agremiação com Monarco como presidente de honra, Sérgio Procópio de presidente e Marcos Falcon como grande articulador.

E a Portela mudou. A Harmonia da escola passou a ser profissional. Dificilmente a Portela perdeu pontos nesses anos em harmonia, conjunto e evolução. A bateria se firmou novamente sob a batuta de Nilo Sergio. A ala de compositores foi renovada e uma nova linha de sambas foi gerada na Portela (todos tirando sempre nota 10). Faltava o “algo a mais”. E esse veio com Paulo Barros de carnavalesco.

Bingo!

IV

O Fluminense veio de uma eleição acirrada após seis anos de mandato de Peter Siemsen. Vivi intensamente a eleição, pois fui um dos coordenadores de campanha de Pedro Abad. Como o final do campeonato brasileiro de 2016 foi ruim para o time, Abad assumiu com desconfiança de parte da torcida.

Não houve grandes contratações. Muitas dispensas. Abel veio. A base foi muito usada. A ideia era fazer um time jovem, técnico e com muita intensidade.

E logo de cara, sapecamos três no Vasco da Gama. E foi pouco. Até agora só perdemos um jogo, onde jogamos com time reserva.

E anteontem veio o título.

V

A conquista da Taça Guanabara começou a ser ganha no segundo tempo contra o SINOP pela Copa do Brasil e na dificuldade da volta (7 horas de ônibus até o aeroporto de Cuiabá).

Foi delineada quando Abel mudou o seu esquema preferido desse ano, 4-1-4-1, para o 4-3-3 jogando com Richarlison e Welington bem abertos, usando-os em contra ataques rápidos. Ali, matou Zé Ricardo que demorou a entender a proposta. A sorte deles é que Julio Cesar vacilou nos dois primeiros gols.

E foi sacramentada na partida exuberante de Welington, Richarlison, Sornoza, Pierre, Lucas e da zaga.

Repito: só foi para os pênaltis porque Júlio Cesar – que viria ser herói na disputa de pênaltis – entregou a paçoca duas vezes.

Epilogo

Fomos campeões em cima de um dos três melhores elencos da Brasil, a gente com dificuldade financeira, sem patrocínio master ainda, e o time deles se dando ao luxo de pagar 1 milhão de salário a único jogador.

Ganhamos um título. Ainda temos um grande percurso pela frente e muito por se fazer. O trabalho é de formiguinha.

Mas, acredito que esse time já ganhou o coração dos tricolores.

No mais, duas certezas: que esta semana foi épica para meu coração tricolor e portelense e que freguês é sempre freguês.

Ai, Jesus!

Panorama Tricolor

@PanoramaTri @mvinicaldeira

Imagem: mvc

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