A paradoxal temporalidade tricolor (por João Leonardo Medeiros)

João Leonardo

Há duas coisas em construção atualmente no Fluminense: o CT e o time de futebol profissional. A primeira construção, evidentemente, permite ao clube superar uma carência histórica, prover os profissionais de melhores condições de trabalho, traz literalmente sustentação ao seu trabalho mais importante. Agora, parece-me igualmente evidente que a segunda construção tem uma temporalidade mais curta do que a primeira: precisamos de um time aqui e agora, precisávamos no começo do ano, no ano passado, em 2014, 2013.

Se o CT não sair esse ano, sai ano que vem ou em cinco anos, como disse o Levir. O Flu continua vivo, ainda que com sua estrutura limitada. Sem time, o clube perde a razão de ser, perde a alma, perde suas encarnações humanas, os torcedores. Paradoxalmente ou não, o Fluminense, ou pelo menos sua direção, vem tratando as duas construções com temporalidade invertida nesse ano de 2016: a obra do CT corre a jato, a construção do time se arrasta em ritmo quelônico.

No caso do time, isso não é novidade. 2012 foi o último ano em que tivemos de fato um time competitivo em Laranjeiras. Wellington Nem saiu aquele ano e estamos até hoje para contratar um atacante de lado de campo minimamente talentoso. Bruno e Carlinhos saíram depois e já vamos para dois anos sem laterais, nem esquerdo, nem direito. Conca voltou e foi embora e ficamos sem um meio-campo cerebral. Fred saiu e devemos ficar sem centroavante goleador por quantos anos ou séculos?

A diretoria do Flu não tem pressa para montar um time, isso é evidente. Quanto tempo levou para contratar um técnico? Pelas minhas contas, antes de Levir o último técnico de verdade foi Dorival, que teve aquela passagem relâmpago salvadora inexplicavelmente não prorrogada. Isso foi em 2013 e Levir só foi contratado em 2016. Dois anos e meio para achar um bom treinador. Como treinador não entra em campo (embora ajude muito, é claro), Levir vai fazendo o possível com o que tem, esperando reforços dignos desse qualificativo. Espero que tenha levado uma cadeira confortável para as Laranjeiras.

A novidade, portanto, não está no tempo geológico de montagem do time, mas na pressa com a construção do CT. Isso seria, em si, uma boa notícia, se não nos passasse duas imagens péssimas: que, primeiro, o cronograma apertado do CT tem motivação eleitoreira; segundo, que a pressa com a conclusão da obra tem pressionado o orçamento e atrapalhado a montagem do time. Pode ser, pode não ser, as forças da situação vão negar. Mas que parece ser isso, parece.

Como parece esquisita a temporalidade de determinadas ações que vão sendo aos poucos trazidas ao público. De repente, descobrimos que o Fluminense já tem em curso, há algum tempo, um projeto de compra de um time da segundona da Eslováquia. A coisa agora parece ter virado prioridade número 1, sabe-se lá por quê. Que diabo de projeto é esse que tem de ser resolvido assim no atropelo? Não dá para discutir os contras ou ele só tem prós? Eu entendi que o Flu vai meter uma fortuninha lá em investimento, só não entendi o que ganha exatamente com isso. Facilita para vender? Se é disso que se trata, então escancaramos de vez: Xerém cria para vender nos subúrbios futebolísticos da Europa. É isso mesmo?

E o estádio? Nosso atual presidente, o senhor Siemsen, já declarou que até sair vai deixar encaminhado o projeto do estádio. O que significa encaminhado? Significa assinado, contratado? Então o presidente no último ano de mandato vai obrigar o próximo presidente a cumprir um projeto vultoso lançado de chofre, sem muita discussão? A gente tem pelo menos um debate legítimo a respeito: vamos de Laranjeiras + Maracanã ou vamos de outra coisa fora desse arranjo? É o presidente de saída que vai pautar a discussão? Eleição não serve justamente para discutir projetos diversos?

Voltando ao início: a única coisa que realmente tem urgência no Fluminense é a construção do time. Essa obra está atrasada há pelo menos três anos. E não tem nenhum indício de que isso esteja sendo tratado como prioridade absoluta. Não restam dúvidas de que estamos diante de um deslocamento temporal, de uma situação bizarra em que o médio e longo prazos atropelaram o curtíssimo prazo. Como cansei de entender, chamei a grande tricolor Maria Bethânia, que acaba de completar 70 anos bem vividos, para explicar com a Oração ao tempo, de seu irmão.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri

Imagem: jol

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