1978-2012 (por Paulo-Roberto Andel)

I

Houve um tempo em que os jogos no Maracanã eram às cinco da tarde.

Sempre havia uma preliminar às três, geralmente feita pelos times de juvenis dos disputantes do confronto a seguir – eram tempos de juvenil mesmo, não se falava “categoria de juniores”.

Qualquer jogo tinha cem ou cinquenta mil pessoas. Alguns, nem tanto.

Garotos como eu esbaldavam-se com o copo de Coca-Cola em espuma. Os vendedores pareciam astronautas: todos de branco, tanque de refrigerantes nas costas e capacete, o que encantava as crianças. Bebia-se cerveja nas arquibancadas. Alguns patifes utilizavam o copo vazio para depois urinar e, a seguir, jogar o novo “drinque” em alguém na geral. Muitas vezes era difícil ir ao banheiro mesmo e até sair do lugar onde se estava sentado. Não importava a boa ou má fase. Ninguém comprava ingressos antecipados, chegava-se na hora e pronto.

Em casa, via-se os gols. Jogo mesmo, só indo lá.

Ou esperando o videotape da TVE, exibido à meia-noite com narração de Januário de Oliveira, José Cunha, comentários de Achilles Chirol ou José Roberto Werneck, reportagens de Sebastião Pereira. Antes, no mesmo canal, havia o programa de debates, apresentado por Luiz Orlando. Na Bandeirantes, antes de virar sua corruptela, era o Bola na Mesa, com Márcio Guedes, Paulo Stein, Alberto Léo e José Roberto Tedesco. Quando o jogo era sábado, a Bandeirantes também exibia o videotape no domingo de manhã – foi assim que vi uma goleada do Fluminense sobre o América, 6 x 1, eles tinham o goleiro Ernâni em lugar de País.

E foi mais ou menos assim que eu comecei a ser um torcedor regular das arquibancadas do Fluminense, por volta de 1978. Havia uma certa crise, acreditem: não ganhávamos títulos há dois anos e isso gerava um mal-estar. Era a fase pós-Máquina, pouco dinheiro, dívidas e jogadores humildes. Mas as bandeiras nunca deixaram de fincar presença nas arquibancadas e sempre havia o tradicional pó-de-arroz a cada entrada do time em campo, além do espetacular torcedor Careca, sempre a atirar pacotes do mesmo pó branco a qualquer um que se metesse pelo caminho.

Depois de mais dois anos de “sofrimento”, veio 1980. Passamos a ganhar os então poderosos da cidade, Vasco e Flamengo. E o Fluminense acabou campeão em cima do mesmo Vasco, num gol de Edinho, no mesmo dia em que Cartola faleceu. Pouco tempo depois, quem disse adeus foi o imortal Nelson Rodrigues. Já o América era um calo e sua torcida chegava a ocupar dois terços de seu espaço reservado à direita das tribunas de honra.

Também na Bandeirantes, havia o programa “Papo de Arquibancada”, comandado por Hamilton Bastos (depois, Dênis Miranda). Nele, chefes de torcidas organizadas debatiam o futebol, os problemas no Maracanã, a violência (nada, quando comparada a hoje). Luis Carlos, Pequenos Vascaínos; Amâncio Cezar, TOV; Dulce Rosalina, Renovascão; Seu Armando, Young Flu; Zezé, Força Flu; Niltinho, Jovem Fla; Russão, Folgada. O cenário era de arquibancadas mesmo, ocupadas pelos integrantes das torcidas. As pessoas conversava, debatiam e eram até amigas. Claro que eventuais rusgas surgiam, mas estávamos num outro mundo, menos violento mas ainda enfrentando situações abomináveis como a ditadura no Brasil.

Em alguns jogos, a torcida do Fluminense era minguada mesmo, principalmente nas partidas contra as equipes de menor expressão. Mas quando os clássicos chegavam, o mar tricolor no concreto do Maracanã era certo. Meia-hora antes do início do jogo, as bandeiras das torcidas entravam em fila pelo primeiro túnel de acesso dos torcedores e uma festa começava, sempre aos gritos de “Neeeeeeeeessseee”. Também havia vários sambas cantados em coro, muitos de enredo. Além das torcidas e de seus respectivos chefes já citados, tínhamos a Jovem Flu, primeira à direita, perto da tribuna de honra; Fiel Tricolor, da Tia Helena e outras mais.

II

Depois de anos de luta, apenas dois desde o título de 1980 mas que pareciam uma eternidade, o Flu voltou ao topo em 1983. Antes disso, esteve perto de decidir dois títulos brasileiros, mas ficou pelo caminho em confrontos contra o Vasco em 1981 – vencemos, não nos classificamos mas nossa torcida aplaudiu de pé – e o Grêmio em 1982 – levamos um incrível gol de China, num chute de primeira quase da intermediária. Depois, tudo foi festa: estádio lotado, três campeonatos estaduais seguidos, partidas de muita emoção, um tão ansiado novo título brasileiro, um time para a história. Com homens como Manoel Schwartz, José Carlos Villela, Newton Graúna e Paulo Alvarenga, o Fluminense foi o time a ser batido em todas as competições que disputou. Tempos depois, a equipe foi perdulariamente desfeita, veio uma transição com jovens jogadores, tivemos alguns momentos de brilho intenso – como, por exemplo, ao termos eliminado o Vasco da Copa União de 1988 – mas também decepções, como a eliminação no campeonato brasileiro de 1991 para o Bragantino, mais vice-campeonatos estaduais no mesmo ano, em 1993 e a perda do título no último jogo de 1994, afora a roubadíssima Copa do Brasil em 1992 contra o Inter, a três minutos da consagração. Foram quase dez anos de sacrifícios, até que veio 1995 e ganhamos o maior jogo de todos os tempos, levantando a imortal taça do centenário. Mas mesmo neste ano houve dor: custou caro perder a semifinal para o Santos no campeonato brasileiro, depois de uma excelente campanha, e o pior ainda estaria por vir.

Os anos seguintes foram dor e morte. O Fluminense morreu várias vezes. Por causa da picaretagem armada por Corinthians e Atlético Paranaense (Ivens Mendes – Petraglia – Dualibi), o Fluminense não foi rebaixado. Mas que ninguém se engane: deveriam ter caído o alvinegro paulista e o rubro-negro do Paraná. O advogado de acusação de ambos na imprensa foi ninguém menos do que Juca Kfouri, corinthiano confesso. Nada aconteceu como devia, o Fluminense foi poupado temporariamente, mas jogado aos leões no ano seguinte: com um time fraco e uma enorme campanha midiática, já entrou rebaixado desde a primeira rodada. Tal como no ano anterior, o Flamengo também deu sua colaboração, entregando claramente uma partida para o Corinthians no Morumbi (Zezinho Mansur, o dirigente corinthiano, chegou a declarar em público que o rubro-negro “precisava entender o momento deles”; em 1996, sob a batuta de Joel Santana, a Gávea entregou de mãos beijadas uma vitória para o Bahia, 2 x 1 em São Januário). E o Fluminense caiu de vez. A sangue-frio, sentiu um punhal em suas próprias vísceras. Era só o começo. É claro que diante desse cenário, a torcida escasseou. Poucos viram o drama das arquibancadas, exceto os muitos integrantes das torcidas organizadas – hoje, nomenclaturados como “bandidos”, “assassinos” e outros termos que não fazem jus à essência da questão.

O golpe de morte poderia ter sido dado no fatídico jogo Fluminense 2 x 3 ABC pela segunda divisão em 1998. Os dirigentes tricolores pararam no tempo e pensaram que nossa torcida não apoiaria o Flu num domingo às onze horas da manhã: solicitaram pouco mais de dez mil ingressos. O triplo ou o quádruplo da demanda era necessário, o pau cantou nos portões, estes precisaram ser abertos e os nossos deram uma das maiores demonstrações de amor em toda a história do clube. Mas um campeonato de regulamento patético, com apenas dez jogos e também a desordem vigente no clube levaram o Fluminense ao que parecia ser o seu fim como time de futebol: a terceira divisão. Muitos choraram oceanos. A dor foi caos. Mas o Fluminense não acabaria nem mesmo com o fim do mundo – e sobreviveu. Era preciso reconstruir um clube e um time inteiros. E foi o que aconteceu no ano seguinte, com a liderança admirável de Carlos Alberto Parreira – um tetracampeão mundial que não se encolheu e aceitou trabalhar na terceira divisão para ajudar o clube de seu coração.

III

Finalmente o Fluminense chegou ao ponto em que muitos setores da imprensa desejaram por décadas: passou a ser o time mais ridicularizado do Brasil em quase todas as publicações e programas possíveis. Era preciso haver a reconstrução. Ela começou com o apoio direto do presidente Horta e o patrocínio de uma empresa então desconhecida no Rio de Janeiro: a Unimed.

Não foi possível abarrotar o Maracanã em 1999. Muitos temeram o fim do Fluminense. Ardiloso, “O Globo” insinuou que a única saída seria uma possível fusão com o Bangu. Mas vinte mil maníacos não desistiriam nem com a morte – ao lado das organizadas, eles estiveram em todos os jogos de mandante da terceira divisão (um deles memorável, contra o Náutico, vitória nossa debaixo de uma chuva continental, apenas com ingressos na geral devido às obras do Maracanã). E os vinte mil maníacos ao fim do ano deram ao Fluminense um dos maiores públicos médios do Brasil naquele ano, já com pacotes televisivos disponíveis. Ganhamos a terceira divisão com honra e dignidade. Erigimos dos destroços para a ressurreição.

Fluminense e Unimed cresceram, nem sempre com vantagens equitativas. De toda forma, o tricolor recobrou as forças. Passamos perto do título brasileiro em 2000, 2001 e 2002. O carioca dos 100 anos do clube foi ganho com muita luta – principalmente contra a imprensa, que tentou a todo momento sabotar a competição para que nosso time não fosse valorizado; afinal, 1995 custou muito caro a eles. Tropeçamos em 2003 mas a força de nossa torcida se fez presente: contra o Juventude, 1 x 0, gol de Marcelo, nos livramos de nova queda e o Maracanã urrou como nunca pelo alívio.

Glórias e dores ainda viriam pelo caminho, é a sina tricolor. Tal 1995, tal 2005 – desta vez, a Copa do Brasil escapou para o Paulista. Novas lutas contra rebaixamentos em 2006, 2008 e o inesquecível 2009. A dor da Libertadores de 2008. Entretanto, as conquistas da Copa do Brasil de 2007 e do campeonato brasileiro de 2010 levaram ao Fluminense à condição de time temido no continente: se não ganhou a competição mais importante da América, passou a ser um frequentador assíduo dela – e poderosas equipes como São Paulo, Inter e Boca Juniors sentiram o que é encarar o peso do Fluminense de frente. O campeonato carioca de 2012 pode reconduzir o tricolor a cenários de supremacia local. Somos os líderes do atual campeonato brasileiro e temos tudo para chegar a mais um troféu importante. A possibilidade de chegar à Libertadores de 2013 é é gigantesca.

Estamos vivos e firmes em 2012. Somos força, tradição, conquista e o amor infinito de uma apaixonada torcida. Sábado é logo ali na esquina. Uma boa vitória sobre o Náutico em casa, mais um empate entre Atlético-M e Grêmio – ambos os resultados plenamente normais -, tudo fica normal e sereno. Com cheiro de liderança ainda mais forte, contundente e, ao mesmo tempo, serena.

Paulo-Roberto Andel

Panorama Tricolor/ FluNews

@PanoramaTri @ pauloandel

Imagem: Vitor Melo

Contato: Vitor Franklin

 

 

11 Comments

  1. Paulo, saudações tricolores…

    Excelente resumo da nossa história recente de muita luta e esperança…

    a cada dia que passa me orgulho mais de ser tricolor

    nas derrotas, nas vitórias
    jamais abandonei o nosso Fluzão, como citou na terceira divisão, nossa torcida bateu recorde em pacotes do pay per view, eu em particular não perdi nenhum jogo, inclusive fui no jogo entre flux moto club em Juiz de Fora que fica a 100 km da minha cidade Ubá, isso se chama paixão.

    Rumo ao Tetra em 2012

  2. Parabens pelo texto Paulo, me diga uma coisa sei que ja faz muuito tempo mas assim como a Flapress adora o fluminense e insistem amplificar todo e qualquer momento ruim vivido pelo nosso amado tricolor.Eu gostaria que dessemos uma remexida na lixeira do “maior da galaxia’ pois gostaria de saber um pouco mais sobre aquele patrocinio da petrobras nos anos 80 que me parece uma clara interferencia da ditadura e o caso “Wrigth” da libertadores que o flamengo ganhou, pois parece que e proibido tocar nesse assunto na midia pois ninguem comenta.

  3. Eu morro de rir com o jornal O Globo, a cada fracasso do time, a manchete durante a semana é “fla inicia recomeço na próxima rodada”, já deve ter tido umas 7 ou 8 manchetes desse teor.

  4. Meu “‘ÍDALO” fico feliz de ter você como amigo e poder ler e desfrutar dessa viagem maravilhosa que é ser tricolor, passar por tantas emoções, tantas tristezas, tantas alegrias e ser forjado como o aço no fogo da vida !!! Parabéns por esse lindo texto !!!

  5. Sensacional aula de história, como já me acostumei a ler em teus artigos e crônicas, grande Paulo Andel!
    Abração e SSTT!!!

  6. No meu tempo de guri preliminar era jogo de aspirantes, time formado por jogadores reservas que não ficavam no banco. Aspiravam ser titulares. Os jogos eram disputadíssimos, melhor que a segunda divisão do carioca. e tinha o Torneio Início, que era realizado num domingo apenas, jogos curtos, onde número de escanteios era vantagem em casos de empate. Futebol era mais amador, mais ingênuo. tenho muitas histórias na lembrança pra contar aos jovens tricolores e resgatar memórias de um tempo ido, onde os tricolores forjavam as gerações de hoje. Qualquer ora conto algumas.

  7. Sou um pouco mais velho que vc, e acompanho o Fluminense desde 1962, pois meu pai era fanático e me levava ainda muito jovem, assim como meu irmão, ao Maracanã. Vi grandes vitórias nesses 50 anos . Adorei a sua crônica, porém acredito que deveria ter abordado um pouco mais sobre as Máquinas Tricolores ! Abração !

    1. Paulo responde: Muito obrigado pelas palavras, Marcio.

      A Máquina 75/76 não entrou por simples razão: começo a escrver justamente sobre o que vivenciei in loco ao fim dela, daí o título “1978-2012”.

      O fortíssimo time dos anos 80 já foi clamado e declamado inclusive em bons livros (a Máquina também). Não teria como traduzi-lo em duas páginas.

      Um abraço, ST

  8. Grande Andel,

    Entrei numa máquina do tempo ao ler seu excelente texto. Quanta saudade destes tempos maravilhosos e gloriosos. Que dor lembrar da década perdida (anos 90).

    Como iniciei minha caminhada de arquiba no ano de 1973, vivi intensamente vários destes episódios, começando pela inesquecível final do referido ano, contra nosso super freguês (Flamengo), ao vencermos por 4a2.

    Tempos de Young Flu do seu Armando… quantas vezes acompanhei os jogos ali, naquele bolo de torcedores que assistia aos jogos em pé, empurrando o time, mesmo sem jamais ter sido associado.

    Quantas corridas do eterno “maluco”, o Careca e seu pote de talco, jogando em todos a sua volta.

    Que, a partir desta administração, possamos estar retomando o rumo de clube respeitado e temido internacionalmente e, que possamos atingir níveis jamais alcançados, como as conquistas da Libertadores e do Mundial… sonhar não custa nada.

    ST, Luiz.

  9. Muito bom. Excelente. Vivi isso a distância, pela TV. Em 84 e 95, vi, em loco, as voltas olímpicas. Em 98, fui ao Maracanã ver o jogo contra o ABC. Em 99, pelas redondezas: Anápolis, Goiânia e aqui em Brasília. Na terceira divisão, criamos o Movimento Pró-Flu do DF e vivemos intensamente o período. Fizemos eventos que reuniram mais de duzentas pessoas. Ou seja, mesmo longe das arquibancadas, foi overdose de Fluminense na veia.

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